[Notícia WWF-Brasil] Organizações socioambientais destacam a urgência de legislação robusta para a proteção do Pantanal

Novo texto precisa abordar medidas emergenciais e sustentáveis para preservar o bioma Pantanal

Por: WWF-Brasil, SOS Pantanal, EJF – Environmental Justice Foundation e Chalana Esperança

O WWF-Brasil, SOS Pantanal, EJF – Environmental Justice Foundation e Chalana Esperança em nota técnica divulgada dia 01/07/2024, ressaltam a urgência de uma legislação federal específica e robusta para a proteção do Pantanal. O bioma enfrenta uma situação alarmante, com 3.451 focos de incêndio registrados até a última quinta-feira (27), contra os apenas 157 do mesmo período do ano passado – um aumento de cerca de 2000%. Este cenário de seca extrema e ondas de calor agravam a degradação ambiental e ameaçam a biodiversidade da região.

A nota técnica aponta que modelos preditivos do Laboratório de Aplicação de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA/UFRJ) Laboratório de Aplicação de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA/UFRJ) indicam uma probabilidade de mais de 80% de perdermos uma área superior a dois milhões de hectares para o fogo este ano.

Necessidade de uma legislação efetiva

A Constituição Federal exige a elaboração de uma lei específica para assegurar a conservação do Pantanal. O Projeto de Lei (PL) n. 5482/2020, atualmente em tramitação no Congresso Nacional, ainda carece de dispositivos concretos que garantam a preservação do meio ambiente e o uso sustentável dos recursos naturais do bioma.

A nota técnica destaca áreas que necessitam de atenção específica, como a inclusão da proteção da Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai (BAP) na legislação, o fortalecimento das brigadas de incêndios e a criação de mecanismos legislativos que determinem uma avaliação integrada de impactos ambientais. A conservação e recuperação do bioma também devem ser asseguradas por meio da implantação de novas unidades de conservação, fortalecimento das gestões das unidades existentes e políticas de desenvolvimento econômico sustentável.

 Os principais pontos da nova proposta incluem:

  • Inclusão da Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai: Fundamental para a preservação do regime hídrico do Pantanal e a segurança jurídica dos povos tradicionais da região. Sem uma lei que olhe para a BAP, o Pantanal secará completamente e as queimadas se intensificarão cada vez mais, comprometendo o equilíbrio ecológico do bioma, a biodiversidade e o bem viver dos povos que ali habitam.
  • Fortalecimento das brigadas de incêndio: Incentivo à capacitação e criação de novas brigadas pantaneiras, além de reforço orçamentário para disponibilização de ferramentas e maquinário necessários, incluindo  aeronaves. É vital o fortalecimento do PREV-fogo/IBAMA, do corpo de bombeiros e das brigadas privadas e comunitárias regionalmente.
  • Avaliação integrada de impactos ambientais: Estabelecimento de critérios específicos para o licenciamento ambiental e restrições ao uso intensivo do solo. Somente assim será possível impedir a degradação em larga escala no bioma.
  • Conservação e recuperação do bioma: Implementação de novas unidades de conservação, fortalecimento das gestões das unidades existentes, restauração ecológica de cabeceiras e promoção de cadeias produtivas sustentáveis baseadas na sociobiodiversidade.
  • Apoio às comunidades tradicionais: Garantia dos direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades tradicionais, além de valorização das práticas tradicionais e sustentáveis.

Compromisso com o futuro

Reforçamos a importância de uma abordagem integrada e focada na preservação ambiental para garantir a sobrevivência do Pantanal e das comunidades que dependem dele. As organizações que assinam a nota técnica conclamam os parlamentares brasileiros a redigir, votar e aprovar uma legislação que proteja e recupere o Pantanal, atendendo também às demandas globais de proteção do clima e da biodiversidade.

Sociedade civil organizada, setor produtivo e representantes governamentais debatem status do Código Florestal em audiência pública no Senado Federal  

Análise e validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a implementação do Programa de Regularização Ambiental (PRA) para restauração da vegetação nativa foram as principais pautas da audiência pública sobre o Código Florestal (Lei nº 1.2651/2012) na terça-feira, 18, na Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas (CMMC), no Senado Federal.  

O evento idealizado pelo Observatório do Código Florestal (OCF) com apoio da Frente Parlamentar Mista Ambientalista (Fpamb) reuniu gestores governamentais, representantes da sociedade civil organizada, da indústria e do agronegócio a fim de debater status, desafios e oportunidades da legislação que completou doze anos de aprovação em maio.    

Para o deputado e presidente da sessão, Nilto Tatto (PT/SP), é urgente a necessidade de implementação da legislação de proteção da vegetação nativa diante dos efeitos cada dia mais comuns de eventos climáticos extremos.  

“É uma lei que interessa a todos, não só os ambientalistas, mas também o setor produtivo que já vêm sentido os efeitos climáticos por todo o país”, comentou.   

 A senadora Tereza Cristina (PP/MS), integrante da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), reforçou a necessidade de discussões para avanço da lei, cuja elaboração implicou em prolongadas discussões pelo setor legislativo e pela sociedade brasileira  

“A gente precisa ajudar os estados brasileiros a implementarem e analisarem e implementarem o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o judiciário também. O Código Florestal é como uma rede, e cada vez que você ataca um pedaço, você desfaz uma célula e vai virando uma colcha de retalhos”, comentou a parlamentar.   

O debate contou com a participação do secretário executivo do Observatório do Código Florestal, Marcelo Marques Spinelli Elvira; da especialista sênior em Políticas Públicas no Observatório do Clima, Suely Araújo; da coordenadora executiva nacional do Diálogo Florestal, Fernanda Rodrigues; da especialista em agricultura e sustentabilidade Laura Barcellos Antoniazzi, membro da coordenação da Araticum; e do diretor do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Queimadas do Ministério do Meio Ambiente, Raoni Guerra Lucas Rajão.  

A audiência também contou com as participações do representante da Organização das Cooperativas Brasileira (OCB), Leonardo Papp; do coordenador de Sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Nélson Ananias Filho; do chefe-geral da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Territorial, Gustavo Spadotti Amaral Castro, do pesquisador do mesmo órgão, Felipe Ribeiro; da secretária de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado de Goiás, Andrea Vulcanis; do gerente de recursos naturais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Mário Cardoso e da diretora do departamento de florestas da Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais (MMA), Fabíola Zerbini. 

Os desafios abordados pelos diferentes setores na audiência se concentraram nos dois principais instrumentos inaugurados pela lei aprovada: o Cadastro Ambiental Rural (CAR), inscrição eletrônica que permite a identificação do passivo ambiental, e o Programa de Regularização Ambiental (PRA), mecanismo que visa a implementação dos projetos para recuperação da vegetação nativa desmatada na área rural do país.

CAR: PRIMEIRA ETAPA E DESAFIO 

O secretário Raoni Rajão iniciou a audiência abordando os entraves encontrados na análise e validação do CAR, processo de responsabilidade dos Estados. 

De acordo com dados do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) citados pelo especialista no evento, apenas 1,5% dos cadastros, que somam mais de 7 milhões de inscrições em imóveis privados, tiveram análise concluída. Com a análise iniciada, o número sobe para 29%. 

Para o especialista, a adoção de incentivos econômicos para finalização da análise é uma das ações possíveis para agilizar o processo de análise do CAR. “Muitas vezes o produtor tem algum tipo de receio de responder e finalizar o cadastro, não tem incentivo. Às vezes quem recebe a notificação é um técnico que nem está mais à frente daquela propriedade”, comentou.   

Ao mesmo tempo, uma das questões levantadas na audiência pelos representantes do setor produtivo foram os efeitos da lentidão na análise do cadastro para os produtores rurais.   

O representante da CNA, Nelson Ananias Filho, citou as dificuldades encontradas pelo setor produtivo pela falta de validação do CAR, como acesso a crédito e programas de pagamentos por serviços ambientais.  

Desafios tecnológicos na análise, como a necessidade de automatização de alguns tipos de verificações e a integração de dados, também foram abordados pelos participantes da audiência como necessidades para o avanço na questão.  

A urgência da análise eficaz foi ressaltada pelo secretário executivo do OCF, Marcelo Elvira, que apontou que o CAR sem análise e validação é usado como ferramenta de pressão contra populações indígenas e tradicionais de seus territórios, além de grilagem pela invasão de florestas públicas não destinadas.   

O advogado citou um levantamento realizado pelo OCF no Amazonas, estado responsável por mais de 90% das sobreposições de CAR em florestas públicas não destinadas do país, de acordo com dados do Termômetro do Código Florestal (TCF). 

Iniciativa do OCF liderada pelo Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), o Termômetro do Código Florestal é uma ferramenta digital que promove a transparência de dados da implementação da legislação de proteção da vegetação nativa no país. 

Pela plataforma é possível checar o cumprimento dos principais instrumentos da lei, como o cadastramento no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar), o remanescente de vegetação nativa e os passivos de Reserva Legal (RL) e Área de Proteção Permanente (APP) nos estados e municípios. A ferramenta foi apresentada na audiência pela pesquisadora do Ipam, Jarlene Gomes.  

“Temos um desafio grande com o tanto de área que precisa ser recuperada no Brasil”, comentou a especialista. A plataforma mostra um passivo ambiental de RL e APP de 19 milhões de hectares. 

Uma análise detalhada do OCF com base em um levantamento do Termômetro referentes ao período de 2022 a 2023 mostrou que o Amazonas registrou, entre janeiro de 2022 e maio de 2023, um aumento significativo de 65% na área cadastrada no estado. O número refere-se a cerca de 8 mil novos cadastros no período.  

Dos mais de oito mil cadastros, apenas 597 são responsáveis por boa parte da área cadastrada. O número refere-se aos grandes imóveis rurais, ou seja, que contabilizam mais de 15 módulos fiscais. No Amazonas, cada módulo fiscal pode chegar a 110 hectares.  

Mais da metade desses imóveis grandes, 77% (458, ao total) são imóveis privados sobrepostos a unidades de conservação (UCs), terras indígenas (TIs) e florestas públicas não destinadas, o que torna a situação dos cadastros irregular.   

 A sobreposição indica um grave problema nos registros do CAR, uma vez que essas terras não são passíveis de validação no cadastro.  

No levantamento realizado, 89% dos cadastros constavam como ativos, 5% pendentes e 6% suspensos. Os graus de sobreposição variam, mas 53 dos cadastros de imóveis grandes em UCs registram 100% de sua área sobreposta. No caso das TIs, três cadastros também contabilizaram cobertura completa na área protegida por lei.  

Ainda, se o número de cadastros é grande para imóveis rurais e a necessidade é de análise e validação, os assentamentos e comunidades quilombolas e tradicionais enfrentam situação diferente quando o assunto é CAR: o cadastramento.  

Em sua fala, Marcelo relembrou a falta de avanço no cadastramento do módulo CAR PCTs, que conta com pouco mais de 3 mil inscrições em mais de uma década de aprovação da lei.  

RESTAURAÇÃO: UMA URGÊNCIA (POSSÍVEL) FRENTE A CRISE CLIMÀTICA  

Se a primeira etapa da lei enfrenta desafios significativos, a regularização ambiental por meio da recuperação e restauração da vegetação nativa ainda parece distante da realidade do país, mas cada dia mais urgente. 

Os representantes das organizações da sociedade civil foram unânimes na avaliação do papel da restauração para a mitigação dos efeitos da crise climática. 

A representante do Observatório do Clima, Suely Araújo, lembrou que, no Brasil, o uso da terra responde por 48% da emissão de gases de efeito estufa do país, o que dá peso à necessidade de proteção da vegetação nativa pelo combate ao desmatamento e pela restauração. 

Os Programas de Regularização Ambiental (PRA), segunda etapa de implementação da lei, carecem de devida implementação e funcionamento por boa parte dos estados brasileiros. 

Apesar disso, a coordenadora do Diálogo Florestal, Fernanda Rodrigues, ressaltou a necessidade de avanços e amadurecimento nos desafios do PRA independentemente da análise do CAR.  

“Já temos estados implementando e com iniciativas interessantes”, disse. Entre os desafios colocados pela especialista, está a necessidade de aprimoramento de ferramentas de monitoramento de acompanhamento da recuperação das áreas. 

Trazendo a experiência da Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum), Laura mostrou que existe um preparo de conhecimentos, saberes e ferramentas que torna a restauração possível, mas falta incentivo político.  

“A experiência tá aí pra mostrar que é possível restaurar os milhões de hectares que o Brasil e o mundo precisam”, disse. 

Já a secretária Fabíola Zerbini, no início da exposição, abordou outras políticas públicas que atuam como impulsionadoras da lei ao lembrar que a meta estabelecida de recuperação de 12 milhões de hectares de vegetação nativa do Plano de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) foi delimitada com base no passivo ambiental de áreas de APPs e RL, identificado à época da elaboração e aprovação do plano, em 2015.   

O tamanho da área também é a NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada, em português) do país. As NDCs são metas climáticas voluntárias estabelecidas por países para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa e contribuir para a estabilização do aquecimento global. Essas metas são definidas nacionalmente e são registradas publicamente pelo sistema da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC). 

“Todo arcabouço estratégico e político desse plano vem para ajudar os produtores, estados e governo a fazer essa grande concertação da implementação do Código Florestal”, comentou a especialista. 

PROTEÇÃO DA LEGISLAÇÃO 

Marcelo Elvira ainda enfatizou a importância da implementação da lei e descartou a necessidade imediata de alterações para aprimoramento.  

De acordo com o especialista, a ênfase deve estar na aplicação efetiva das regras atuais, com um foco na transparência de dados, validação do CAR, implementação do PRA, fortalecimento das estruturas de fiscalização e apoio técnico. 

“A legislação é robusta, o que precisamos é de recursos, vontade e direcionamento para enfrentar os desafios”, comentou.  

Os especialistas citaram as recentes tentativas de flexibilizações do Código que avançam no Congresso Nacional. 

“Não vai ser por um PL que muda a proteção da Reserva Legal na Amazônia que a gente vai conseguir implementar o Código, nem por uma lei que vai mudar o regramento sobre área de preservação permanente para permitir barramento que vai facilitar a implementação”, comentou ao se referir ao o projeto de lei (PL) 3334/2023, que reduz a área de Reserva Legal (RL) em áreas de florestas da Amazônia Legal de 80% para 50%, e o 2168/2021, que flexibiliza a proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs). 

Suely também citou as medidas como parte do chamado Pacote da Destruição, conjunto de leis que preveem flexibilizações no regramento ambiental do país. “E que nos coloca sob risco diante da situação emergencial que vivemos”, comentou.  

Texto: Júlia Beatriz Oliveira / Apoio: Anna Francischini

Código Florestal é tema de audiência pública no Senado Federal

Evento acontecerá na Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas no Senado Federal na próxima terça-feira (18)

Os mais de 19 milhões de hectares de vegetação nativa a serem restaurados no Brasil de acordo com a legislação brasileira representam um dos desafios que devem ser abordados por uma audiência pública na Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas (CMMC) do Senado Federal na próxima terça-feira, 18. Os dados são do Termômetro do Código Florestal

O evento reunirá especialistas da comunidade científica e da sociedade civil organizada, além de representantes de órgãos ligados ao setor produtivo e do governo federal.

Dentre os convidados, participarão Suely Araujo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima; Laura Barcellos Antoniazzi, pesquisadora sênior e sócia da Agroicone e coordenadora da Araticum; Fernanda Rodrigues, coordenadora executiva do Diálogo Florestal; Marcelo Elvira, secretário executivo do Observatório do Código Florestal e Jarlene Gomes, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam).

A audiência pública tem como objetivo promover discussões sobre os desafios e atual estágio da implementação do Código Florestal (Lei nº 12.651/2012) no país, que completou doze anos de aprovação em maio e ainda carece de avanços para sua total implementação.

Idealizada pelo Observatório do Código Florestal (OCF) com apoio da Frente Parlamentar Mista Ambientalista (FPAmb) e da CMMC, a audiência foi motivada também pela urgência da aplicação da lei como meio de adaptação e mitigação dos efeitos da crise climática, cada vez mais urgentes no país que sofre eventos extremos desoladores como o Rio Grande do Sul.

“O Código atua como um instrumento que ajuda de forma significativa na adaptação e mitigação desses efeitos”, comenta Marcelo Elvira, secretário executivo do Observatório.

A vegetação nativa tem um papel de reguladora do clima local, capaz de amenizar efeitos de eventos extremos, além de promover a mitigação por meio do sequestro de carbono. 

O evento reunirá especialistas da comunidade científica e da sociedade civil organizada, além de representantes de órgãos ligados ao setor produtivo e do Governo Federal.

Apesar dos avanços na primeira etapa da lei para imóveis rurais privados, categoria que soma mais de 7,1 milhões de inscrições no Cadastro Ambiental Rural (CAR) de acordo com dados do último boletim do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), a análise e validação dos cadastros ainda enfrentam desafios significativos com uma porcentagem mínima validada. 

A lentidão na análise impacta diretamente a segunda etapa da lei, que deve promover a regularização ambiental de imóveis rurais com déficit ambiental por meio da restauração de vegetação nativa por meio do Programa de Regularização Ambiental (PRA), tema que deve ser abordado na audiência. 

“A lei propõe soluções possíveis para o cenário que estamos vivendo. Uma delas é a restauração da vegetação nativa, por isso a urgência de sua implementação”, complementa Marcelo, especialista em direito ambiental. 

A audiência ainda deve tratar dos impactos na conservação da biodiversidade, o potencial econômico e de geração de empregos e a contribuição da lei para a segurança alimentar, hídrica e energética da população brasileira.  

Serviço

O evento acontecerá  no Plenário nº3, na Ala Senador Alexandre Costa, Anexo II do Senado Federal às 14h (horário de BSB) e será transmitido ao vivo pelo Youtube da TV Senado.  

Marcelo Elvira é novo secretário executivo do Observatório do Código Florestal 

Seleção foi conduzida pelo Comitê Executivo do OCF

Especialista em direito ambiental, o advogado Marcelo Spinelli Elvira é o mais novo secretário executivo do Observatório do Código Florestal, uma rede de 45 organizações da sociedade civil que monitora a implementação da lei de proteção da vegetação nativa do Brasil (Lei 12.651/2012). 

Marcelo é formado em direito pela PUC/SP, tem especialização em direito ambiental pela mesma universidade e em cultura de paz pela Universitat Autónoma de Barcelona. Com uma experiência de mais de seis anos em escritórios especializados em direito ambiental, sobretudo em casos envolvendo a aplicação do Código Florestal, Marcelo também atuou por mais de quatro anos na agenda de incidência e articulação política e litigância no WWF Brasil, membro fundador da rede do Observatório.  

Na organização, atuou principalmente nas agendas de combate a desmatamento e grilagem, proteção do Cerrado e implementação da legislação ambiental. Agora, soma experiência na gestão da secretária executiva do Observatório, que completou doze anos de atuação nesse ano.  

A seleção foi feita pelo Comitê Executivo do OCF, formado pelas organizações Amigos da Terra (Adt), Iniciativa Verde, Instituto Centro de Vida (ICV), Instituto Socioambiental (ISA), Ipam Amazônia, Lagesa/UFMG, SOS Mata Atlântica, The Nature Conservancy (TNC) e WWF-Brasil.

NOVOS DESAFIOS, NOVAS AÇÕES 

A emergência climática cujos efeitos são cada dia mais sentidos pela população brasileira é o principal motivo para a aceleração na implementação da lei, que carece ainda de avanços.  

Nos últimos anos, ainda, as discussões em prol da implantação da legislação foram paralisadas ou dificultadas. “Passamos alguns anos sem conseguir discutir e implementar as agendas ambientais por causa de um governo negacionista”, comenta Marcelo. “Agora temos espaço e abertura no Executivo, apesar da dificuldade ainda no Legislativo”, avalia o especialista. 

Atualmente, diversos projetos de lei com graves flexibilizações à legislação ambiental brasileira avançam na tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. É o chamado “Pacote de Destruição”.  

A fim de caminhar rumo à implementação do Código e evitar retrocessos, o diálogo entre diferentes setores da sociedade é crucial, mostram os especialistas. A efetividade das ações requere um esforço coletivo de iniciativa privada, órgãos públicos e sociedade civil.  

“É preciso que os diferentes setores interessados enxerguem que a implementação da legislação é essencial para um Brasil mais democrático, próspero, justo, produtivo e igualitário”, comenta o advogado.  

Se a vegetação nativa desempenha papel fundamental na adaptação e mitigação dos efeitos da crise climática, o Brasil ainda está em débito na proteção dos biomas e restauração do que foi degradado.  

Para enfrentar os novos desafios impostos nesse momento do Observatório, a nova fase de atuação deve buscar ainda mais pluralidade de conhecimentos.  

Marcelo ressalta a importância da rede se consolidar como centro de discussão de novos saberes. “É crucial que estejamos conectados com os saberes tradicionais do Brasil para que essa lei avance”, finaliza o secretário executivo.  

Organizações da sociedade civil firmam acordo de cooperação técnica com Ministério Público do Rio de Janeiro para combate ao desmatamento na Mata Atlântica

Acordo prevê produção e monitoramento de informações de uso do solo de imóveis rurais privados

A Mata Atlântica é um dos biomas mais devastados do país e para conter o desmatamento do bioma, a transparência de dados e informações sobre o uso da terra é fundamental. 

Para colaborar nessa tarefa, o  Observatório do Código Florestal (OCF), o Instituto de Direito Coletivo (IDC) e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) firmaram um acordo de cooperação técnica para a produção e transferência de dados e informações sobre as irregularidades do uso e cobertura do solo no estado. 

O objetivo é combater o desmatamento e avançar na restauração da Mata Atlântica a fim de  fomentar a preservação dos serviços ambientais e a biodiversidade na região de acordo com as normas previstas pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012).

De acordo com dados do Termômetro do Código Florestal, o Rio de Janeiro possui mais de 126 mil hectares de déficit de vegetação nativa a ser recuperada em imóveis rurais privados.

Pelo acordo, o Observatório do Código Florestal (OCF) e o Instituto de Direito Coletivo (IDC) fornecerá subsídios técnicos sobre o uso do solo para cinco municípios do estado a partir de uma seleção das 10 propriedades rurais privadas com as maiores proporções de passivo, ou seja, de déficit ambiental, em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de Reserva Legal (RL). 

A metodologia para a escolha dos imóveis consiste na utilização de banco de dados originado com geolocalização do estudo “Malha fundiária do Brasil”, iniciativa liderada pelo Imaflora, organização membro da rede do OCF.

Dentre as informações que serão disponibilizadas, está o monitoramento de alterações na cobertura vegetal e mapas temáticos apresentados com detalhamento de coordenadas e classificações legais, o que facilita ações de proteção e regularização ambiental.

As informações geradas serão disponibilizadas ao Ministério Público do estado, o que permitirá recomendações e investigações adequadas na esfera cível e criminal.

Segundo a assessora jurídica do Observatório do Código Florestal, Carolina Jambo, este acordo de cooperação é símbolo da valiosa contribuição da sociedade civil com o MPRJ. “E fornece instrumentos que sejam facilitadores para que este realmente incida, perante o órgão ambiental, responsável pela implementação do Código”, comenta. 

Para a presidente do IDC, Tatiana Bastos, representa um avanço crucial no combate ao desmatamento. “Ao unirmos forças e compartilharmos dados precisos sobre o uso do solo, estamos estabelecendo uma nova fronteira na proteção ambiental. Este é um passo significativo para garantir que as normas do Código Florestal sejam não apenas respeitadas, mas efetivamente implementadas”, finaliza. 

Campanha relaciona proteção da vegetação nativa com enchentes do Rio Grande do Sul 

Peças para mídias sociais estão disponíveis para download e uso livre

Com mais de 170 pessoas mortas, milhares de famílias desabrigadas e impactos socioeconômicos ainda de difícil estimativa, as enchentes que assolaram o estado do Rio Grande do Sul durante o mês de maio caracterizam um dos eventos climáticos extremos alertados pela comunidade científica e da sociedade civil há anos. Outra informação exaustivamente mostrada pelas pesquisas e especialistas é que a vegetação nativa tem função indispensável para evitar os efeitos desse tipo de evento.

Essa é a relação criada pela nova campanha do Observatório do Código Floresta. Denominada “Tragédia Anunciada”, a campanha utiliza imagens impactantes dos danos causados pelas enchentes no estado sulista para sensibilizar a população e as autoridades sobre a importância de preservar a vegetação, cujo papel é essencial no combate aos efeitos da crise climática.  

No Brasil, isso tem importância especial. De acordo com relatório do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, Observatório do Clima) divulgado no ano passado, mudanças de uso da terra, que incluem o desmatamento em todos os biomas brasileiros, respondem por 48% do total nacional de emissões, seguido pela agropecuária, com 27% das emissões brutas do país. 

As peças para mídias sociais da campanha podem ser baixadas e usadas de forma livre neste link.

SITUAÇÃO CRÍTICA

O Rio Grande do Sul é o único estado da região Sul sem regulamentação do Programa de Regularização Ambiental (PRA), etapa obrigatória para implementação do Código Florestal, lei de proteção da vegetação nativa do país.

A informação está disponível no Portal de Monitoramento do Código Florestal, iniciativa do Observatório do Código Florestal liderada pela BVRio, e é uma das evidências da negligência com a legislação ambiental do estado.

O Termômetro do Código Florestal mostra ainda que o estado possui mais de 387 mil hectares de vegetação nativa ainda a ser recuperada, área equivalente à quase oito vezes o município de Porto Alegre, capital do estado. Destes, 256 mil são de reserva legal (RL) e 129 mil são de áreas de preservação permanente (APPs).

Tanto a RL quanto as APPs requerem proteção pois exercem um importante papel no funcionamento e equilíbrio do meio ambiente. As APPs de beiras de rios ainda têm um papel primordial na proteção das margens e evitam assoreamento e erosão.

“A proteção dessas áreas é tão relevante que foram declaradas propriedades da Coroa na Carta Régia já em 1797”, aponta o livro ‘Uma breve história da Legislação Florestal Brasileira’. Sua proteção foi prevista pela legislação desde o Código Florestal de 1934, à época chamadas de “florestas protectoras” que tinham, dentre suas funções, a de conservar o regime das águas.

Para o assessor em advocacy e políticas do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, é inegável a função da RL e das APPs no combate a eventos extremos como o enfrentado pelo estado pelo papel desenvolvido no regime das águas e equilíbrio ecológico.

“Quanto mais o Código Florestal estiver implementado e essas áreas protegidas, maior a capacidade do ecossistema reagir positivamente a eventos extremos. No RS, a falta de regulamentação do PRA mostra o total descaso com a agenda ambiental e a real percepção sobre o tamanho do problema”, comenta.

O PRA é o conjunto de medidas destinadas à adequação ambiental de propriedades rurais conforme o previsto pela legislação federal de proteção à vegetação nativa.

“A falta de regulamentação do PRA gera incertezas para os proprietários rurais, que não têm regras estabelecidas sobre como proceder à regularização ambiental das propriedades rurais”, ressaltou Jarlene Gomes, pesquisadora do Ipam Amazônia, uma das instituições responsáveis pelo Termômetro do Código Florestal.

Mais informações sobre a situação da legislação ambiental no Rio Grande do Sul acesse a reportagem completa.

Código Florestal completa 12 anos com desafios para implementação e tentativas de ataques no Congresso Nacional 

Área equivalente ao tamanho do Uruguai, são mais de 19 milhões de hectares de passivo de vegetação nativa a ser recuperado no Brasil dentro de imóveis rurais nos termos do Código Florestal.  

Os dados são do Termômetro do Código Florestal (TCF), iniciativa do Observatório do Código Florestal que demonstra o grau de implementação da legislação federal em todo o território brasileiro. Enquanto isso, projetos de lei que flexibilizam a lei avançam na tramitação no Congresso Nacional.  

Esse é o cenário que enfrenta a implementação do Código Florestal (Lei 12.651/2012), legislação aprovada em 25 de maio de 2012 e que completa doze anos com desafios significativos. 

A primeira etapa da lei para a regularização ambiental, a inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR), teve avanços expressivos. De acordo com boletim do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) de outubro de 2023, o último divulgado, a área cadastrada no território brasileiro chega a 671 milhões de hectares.  

Mas esse número tem um gargalo expressivo para parte da sociedade rural brasileira. 

ACESSO DIFICULTADO A COMUNIDADES TRADICIONAIS E QUILOMBOLAS 

A maior parte dos cadastros (7,1 milhões) é de imóveis rurais privados, seguido pelos assentamentos rurais, com apenas 16 mil cadastros e, pelas comunidades quilombolas e tradicionais, com pouco mais de 3 mil cadastros, número considerado baixíssimo.  

Comunidades tradicionais e quilombolas ainda não conseguem ou têm significativa dificuldade de garantir o reconhecimento na política pública e regularização ambiental de suas áreas por meio da inscrição no CAR PCT, o módulo direcionado a povos e comunidades tradicionais (PCTs).  

“Não teve nenhum avanço. A própria legislação diz que o Estado deve apoiar e fomentar o cadastro para os povos e comunidades tradicionais, algo que não acontece. A mudança no número de cadastros quilombolas é irrisória”, avalia Milene Maia, coordenadora do Programa de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA).  

Enquanto isso, as sobreposições de inscrições de imóveis rurais privados, cujo número é crescente, seguem sendo usadas como instrumentos de pressão territorial e violência no campo.  

“Quem se sobrepõe a territórios quilombolas também acaba utilizando isso para acessar políticas públicas”, comenta, ao ressaltar a falta de apoio estatal no apoio para o cadastramento das comunidades quilombolas. “Assim as comunidades ficam invisíveis.” 

Dados do Termômetro do Código Florestal mostram sobreposições de cadastros de imóveis rurais em 51 milhões de hectares. Já áreas cadastradas como PCTs somam 38 milhões da área cadastrada de PCTs e assentamentos rurais, 14 milhões. 

FALTA DE AVANÇOS NA ANÁLISE E GARGALO NA RESTAURAÇÃO 

Para resolver as sobreposições, é preciso análise dos cadastros. Mesmo para os imóveis rurais privados, que atualmente somam mais de 7 milhões de cadastros, a legislação ainda enfrenta o desafio dessa avaliação, também responsabilidade dos governos estaduais. 

“O primeiro desafio é avançar na análise e validação das informações declaradas, o que tem gerado incertezas para os proprietários rurais e dificultado o acesso a benefícios e oportunidade nas demais etapas de regularização ambiental”, explica Jarlene Gomes, pesquisadora do Ipam Amazônia. 

Na fase de restauração e recuperação, ou seja, a segunda etapa após análise do CAR, o Programa de Regularização Ambiental (PRA) exige um projeto de recuperação e restauração de eventual passivo de vegetação identificado na primeira.  

Tanto a RL quanto as APPs, as duas principais categorias de vegetação nativa protegidas pela lei, requerem proteção pois exercem um importante papel no funcionamento e equilíbrio do meio ambiente. 

Os programas, também de responsabilidade dos Estados, entretanto, carecem de devida implementação e funcionamento. É isso o que mostra o Portal de Monitoramento do Código Florestal, iniciativa do OCF liderada pela BVRio.  

O monitor mostra que seis estados (RN, PB, GO, RS, ES e SE) não possuem regulamentação; onze possuem regulamentação, mas sem adesão de imóveis rurais (AM, RR, AP, MA, TO, PI, CE, PE, RJ, PR e SC) e apenas nove estados e o distrito federal possuem PRA regulamentado com adesão de imóveis rurais em andamento (PA, MT, RO, AC, MS, SP, MG, BA e AL). 

FLEXIBILIZAÇÕES NO CONGRESSO NACIONAL 

Além disso, em junho de 2023, o prazo de adesão dos produtores rurais ao PRA foi mais uma vez adiado por meio da aprovação da lei 14.595/2023.  

Agora, o prazo depende da conclusão da análise, processo que já é um gargalo para os estados, e ainda de uma posterior notificação do órgão ambiental para regularização do imóvel. 

Enquanto a legislação carece de esforço para regulamentação dos artigos e consolidação de mecanismo para implementação, o Congresso Nacional ainda empreita uma série de ataques à legislação por meio do avanço na tramitação de projetos que flexibilizam regras e desprotegem a vegetação nativa no país, cujos efeitos são bem demonstrados pelas enchentes recentes no Rio Grande do Sul. 

“Quanto mais o Código Florestal estiver implementado nessas áreas, maior a capacidade do ecossistema reagir positivamente a eventos extremos”, comenta Marcelo Elvira, assessor em advocacy e políticas públicas do Observatório do Código Florestal. 

“O que chama atenção, é que mesmo com todos as vantagens de implementação do código e os malefícios pela não implementação, o congresso brasileiro ainda insiste na flexibilização e fragilização da Lei”, comenta Jarlene. 

Enquanto o projeto de lei 2168/2021, que ataca áreas de preservação permanente (APPs) é pautado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados o projeto de lei 364/2019, que coloca sob desproteção mais de 48 milhões de hectares de vegetação nativa em todo o país, foi aprovado em março desse ano na mesma comissão e aguarda encaminhamento de recurso para apreciação no plenário da Câmara.   

Já no Senado, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) deve votar a qualquer momento o projeto de lei 3334/2023, que pretende reduzir de reduzir de 80 para 50% a área de reserva legal em municípios e estados da Amazônia Legal. 

INTENSIFICAÇÃO DA PRODUÇÃO 

Jarlene também ressalta que é necessário maior esforço de capacidade operacional e estratégia para conciliar produtividade com proteção ambiental.  

Isso resultaria em diminuição de pressão, ou seja, desmatamento, em áreas protegidas pela lei. 

“O aumento da pressão do mercado consumidor por uma transição das cadeias produtivas em prol da sustentabilidade necessita do avanço da implementação da lei e estímulo aos esforços que promovam a intensificação produtiva em áreas já abertas, além da recuperação de áreas degradadas”, comenta.  

O pecuarista Mauro Lúcio Costa é caso de sucesso nisso.  

“Os políticos que falam que precisa abrir mais áreas para a produção e para gerar empregos estão dizendo uma família. O problema não é a falta de área aberta, e sim áreas produzindo melhor, com mais eficiência”, comenta o produtor, que trabalha com pecuária intensiva, ou seja, sem necessidade de desmatamento, há mais de 20 anos. 

Observatório do Código Florestal participa do Seminário Internacional de Acesso à Informação: Transparência e Democracia Ambiental 

No dia 14 de maio, Jo Observatório do Código Florestal (OCF) participou do Seminário Internacional de Acesso à Informação: Transparência e Democracia Ambiental, evento organizado pela Controladoria Geral da União

A rede foi representada por Jarlene Gomes, pesquisadora do Ipam Amazônia, Bruno Vello, analista de políticas públicas do Imaflora e Pedro Saliba, coordenador de projetos da Data Privacy. A ocasião marcou a comemoração dos 12 anos da Lei de Acesso à Informação no Brasil e ofereceu um panorama dos avanços e desafios dessa agenda. O tema ambiental foi o foco do evento, que evidenciou o caráter estratégico da transparência pública e acesso a dados pela sociedade para enfrentar os impactos da crise climática. 

No Painel de “Abertura de Dados Ambientais”, Jarlene Gomes, junto com representantes do Instituto Igarapé, do Ibama e da Rede Iberoamericana de Transparência e Acesso à Informação, apresentou o Termômetro do Código Florestal, ferramenta que utiliza dados públicos para gerar informação qualificada sobre a regularização ambiental de imóveis rurais no Brasil. Os dados serviram de subsídio para destacar os principais gargalos e oportunidades para a ampliação da transparência pública como forma de avançar soluções para conciliar proteção ambiental e produção sustentável. 

Para a pesquisadora, a ampliação de dados abertos fortalece a efetivação de políticas públicas ambientais, especialmente no que diz respeito à regularização ambiental em conformidade com o Código Florestal brasileiro.  

“O acesso transparente aos dados ambientais oferece condições para apoiar nas tomadas decisões, permitindo que os formuladores de políticas e os órgãos reguladores tenham uma compreensão abrangente dos desafios e soluções para alcançar metas de conservação e desenvolvimento sustentável”, comentou. 

Em consonância, o analista de políticas públicas do Imaflora, Bruno Vello reconhece o papel da utilização de dados públicos na busca de soluções e a importância do estreitamento de diálogos entre usuários e técnicos.  

“Pela experiência que têm na utilização dos dados públicos para gerar soluções, as organizações do Observatório conhecem bem o impacto positivo que um olhar cuidadoso por parte dos produtores de dados pode gerar no avanço do direito ao acesso à informação”, incluiu. 

Sobre o Termômetro do Código Florestal 

O Termômetro do Código Florestal é uma ferramenta inédita que disponibiliza dados sobre os avanços na implementação do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e na conformidade com o Código Florestal. Os dados são apresentados no formato de um mapa e em gráficos simplificados. Podem também ser visualizados em nível municipal, estadual, além do agregado das informações para o país e para os biomas brasileiros. Seu objetivo é facilitar a compreensão da aplicação da Lei, fornecer dados confiáveis, de maneira livre e simplificada, subsidiar as políticas públicas e fomentar o diálogo entre tomadores de decisão, academia e produtores. 

O Termômetro é uma iniciativa do Observatório do Código Florestal (OCF), desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) em colaboração com o Comitê Técnico e Científico de instituições-membros do OCF. São elas: Instituto Centro de Vida (ICV), Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Instituto Socioambiental (ISA), Centro de Sensoriamento remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (CSR/UFMG), Amigos da Terra – Amazônia Brasileira (AdT) e Instituto BVRio. 

Rio Grande do Sul reduziu proteção ambiental e não avançou na implementação do Código Florestal

Eventos climáticos extremos trazem à tona afrouxamento da legislação no estado e relação direta com o impacto social

Com milhares de vítimas das enchentes extremas nesse mês e impactos socioeconômicos ainda inestimáveis, o Rio Grande do Sul é o único estado da região Sul sem regulamentação do Programa de Regularização Ambiental (PRA), etapa obrigatória para implementação do Código Florestal, lei de proteção da vegetação nativa do país.

A informação está disponível no Portal de Monitoramento do Código Florestal, iniciativa do Observatório do Código Florestal liderada pela BVRio, e é uma das evidências da negligência com a legislação ambiental do estado.

O Termômetro do Código Florestal mostra ainda que o estado possui mais de 387 mil hectares de vegetação nativa ainda a ser recuperada, área equivalente à quase oito vezes o município de Porto Alegre, capital do estado. Destes, 256 mil são de reserva legal (RL) e 129 mil são de áreas de preservação permanente (APPs).

Tanto a RL quanto as APPs requerem proteção pois exercem um importante papel no funcionamento e equilíbrio do meio ambiente. As APPs de beiras de rios ainda têm um papel primordial na proteção das margens e evitam assoreamento e erosão.

“A proteção dessas áreas é tão relevante que foram declaradas propriedades da Coroa na Carta Régia já em 1797”, aponta o livro ‘Uma breve história da Legislação Florestal Brasileira’. Sua proteção foi prevista pela legislação desde o Código Florestal de 1934, à época chamadas de “florestas protectoras” que tinham, dentre suas funções, a de conservar o regime das águas.

Para o assessor em advocacy e políticas do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, é inegável a função da RL e das APPs no combate a eventos extremos como o enfrentado pelo estado pelo papel desenvolvido no regime das águas e equilíbrio ecológico.

“Quanto mais o Código Florestal estiver implementado e essas áreas protegidas, maior a capacidade do ecossistema reagir positivamente a eventos extremos. No RS, a falta de regulamentação do PRA mostra o total descaso com a agenda ambiental e a real percepção sobre o tamanho do problema”, comenta.

O PRA é o conjunto de medidas destinadas à adequação ambiental de propriedades rurais conforme o previsto pela legislação federal de proteção à vegetação nativa.

“A falta de regulamentação do PRA gera incertezas para os proprietários rurais, que não têm regras estabelecidas sobre como proceder à regularização ambiental das propriedades rurais”, ressaltou Jarlene Gomes, pesquisadora do Ipam Amazônia, uma das instituições responsáveis pelo Termômetro do Código Florestal.

ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE SOB ATAQUE

Não bastasse a falta de funcionamento do programa que permite a recuperação das áreas previstas pela lei, o governo estadual do RS também aprovou em março deste ano e no sentido contrário ao estabelecido pela legislação federal a lei nº 16111/2024, que permite projetos de irrigação em APPs e aumenta, assim, o risco de desmatamento dessas áreas de grande sensibilidade ecológica ao facilitar a realização de intervenções nesses locais.

Em entrevista ao programa Roda Viva no dia 20 de maio, o governador do estado do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, defendeu a nova legislação e justificou a aprovação pelos efeitos da estiagem sofridos pelo estado em 2023 ao ser questionado a respeito da flexibilização ambiental promovida pelo governo e criticada por entidades de referência da sociedade civil organizada.

Em março do ano passado, mais de 70% dos municípios gaúchos decretaram situação de emergência pela perdas de produção impostas pela seca no estado.

Especialistas e estudos mostram, entretanto, que a integridade dos serviços ecossistêmicos promovidos pelas APPs, sob risco com a lei aprovada, são responsáveis pela diminuição de efeitos erosivos e de impactos decorrentes da perda de solo fértil, processo que provoca prejuízo de produtividade e renda no campo.

Além disso, obras de irrigação em APPs resultam no proliferamento de represamentos ao longo dos rios e cursos d’águas, o que impacta diretamente na qualidade e disponibilidade das águas e gera conflitos no campo.

Em 2022, o Observatório das Águas e o Observatório do Código Florestal (OCF) lançaram a nota técnica “Obras de irrigação em áreas de preservação permanente: utilidade pública para quem?” com análise do de medidas que atacam e flexibilizam o desmatamento dessas áreas para atividades de irrigação.

Malu Ribeiro, diretora da SOS Mata Atlântica, membro do OCF e do Observatório das Águas, enfatiza que tais mudanças alteram significativamente os ecossistemas, reduzem a biodiversidade e comprometem os usos múltiplos da água nas bacias hidrográficas brasileiras.

“Ou seja, rios que eram de corredeira e de velocidade viram águas paradas e há um impacto grande na qualidade dessas águas”, explica. “Isso altera todos os ecossistemas e perde biodiversidade, perde a qualidade da água e, com isso, perde a possibilidade de usos múltiplos da água. Portanto, é um projeto de lei equivocado e que beneficia um usuário em detrimento de todos os outros usuários da água das bacias hidrográficas brasileiras”, finaliza.

A nível federal, um projeto de lei similar está em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O projeto de lei nº 2168/21 considera como “utilidade publica”, exceção prevista pelo Código Florestal, projetos de irrigação e dessedentação animal.

Apresentada sob a justificativa das áreas serem “um dos principais entraves para o crescimento da área irrigada no país”, a medida já foi aprovada na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR) e na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS).

Em dezembro de 2023, também foi aprovado no Senado Federal o projeto de lei nº 1282/19, que libera a construção de reservatórios para projetos de irrigação em APPs. De autoria do senador do Rio Grande do Sul Luis Carlos Henze (PP-RS), a medida deve ainda ser apreciada pela Câmara dos Deputados.

FLEXIBILIZAÇÃO DO NOVO CÓDIGO AMBIENTAL GAÚCHO E AMEAÇA AO PAMPA

Sancionado pelo governador do estado em 2019, o novo Código Estadual do Meio Ambiente teve mais de 500 alterações apontadas como graves à proteção ambiental do estado. O novo código foi alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), de número 6681, no Supremo Tribunal Federal (STF), ajuizada no ano seguinte pela Procuradoria Geral da República (PGR).

A mudança mais criticada por especialistas da nova lei é o estabelecimento da Licença Ambiental por Compromisso (LAC), concedida em até 48 horas pelo sistema online do órgão de licenciamento ambiental do estado sem análise técnica prévia.

Outro ponto polêmico do novo Código Ambiental é a proteção do Pampa no estado sulista.

Um dos mais biodiversos biomas brasileiros, o Pampa gaúcho tem uma extensão total de mais de 17 milhões de hectares e conta com grande parte de área ameaçada, degradada e descaracterizada. É, também, o bioma portador da menor proporção de áreas protegidas dentre os biomas brasileiros.

De acordo com dados do Mapbiomas, entre 1985 e 2021 o bioma em terras rio-grandenses perdeu quase 3 milhões de hectares — uma redução de 30% em quatro décadas – enquanto o uso agrícola no solo avançou 2,1 milhões de hectares.

O novo texto afirma que o bioma terá suas características e proteção definidas por lei específica, contudo autoriza diversos usos do solo da região sem necessidade de autorização do órgão ambiental.

A publicação “Pampa: desafios e oportunidades para a conservação do bioma“, organizada pelo OCF com a participação de especialistas do bioma, aponta que a ausência de instrumentos jurídicos para a proteção de formações campestres fragiliza a conservação da área.

Diferente da Amazônia, Pantanal e Mata Atlântica, o Pampa não possui status de Patrimônio Nacional ou lei específica que regula a sua conservação. Dessa forma, as únicas proteções conferidas aos remanescentes de vegetação nativa em propriedades rurais do bioma são as previstas pelo Código Florestal, que estabelece as APPs e a proteção de 20% de reserva legal.

Mas apesar da regulamentação das formas de vegetação nativa, a lei é omissa em relação à regulação do uso sustentável das vegetações não florestais, como é o caso dos campos do Pampa. E isso dificulta a implementação do Código Florestal no bioma.

“Especificamente, o Código Florestal falha por não caracterizar as formas de exploração econômica autorizadas em RL não florestais (Art. 20 a 24 do CF) e por não estabelecer a necessidade de instrumentos regulatórios específicos, negligenciando, por exemplo, a importância do manejo pastoril para a manutenção da biodiversidade e modos de vida tradicionais do Pampa”, discorre o documento.

Uma das recomendações de soluções para os especialistas ouvidos na publicação é a revisão do novo Código estadual, que ratificou o Decreto Estadual nº 52.431, de 2015, ao classificar os campos nativos sob uso agrossilvopastoril anterior a julho de 2008 como áreas de uso rural consolidadas.
Na prática, permite que os campos nativos usados na atividade pastoril sejam declarados, no Cadastro Ambiental Rural (CAR), como “área rural consolidada por supressão de vegetação nativa com atividades pastoris”.

A categoria é prevista pelo Código Florestal para áreas com desmatamento anterior a 2008, o que isenta os imóveis rurais de sanções, permite uso dessas áreas e, no caso de pequenas propriedades (de até quatro módulos fiscais), são flexibilizadas as regras da reserva legal. Em alguns casos, inclusive, a propriedade pode ser dispensada da conservação dessa área.

“Assim como a pecuária extensiva é uma atividade secular no Pampa, a maioria dos imóveis rurais do bioma estaria total ou parcialmente dispensada da obrigação da RL. E a classificação como área consolidada reduziria sensivelmente a extensão de APPs a ser protegida. A dispensa da RL coloca as áreas campestres sob forte risco de conversão para outros usos da terra como a sojicultura, contribuindo para a degradação e descaracterização do bioma e do modo de vida de sua população pecuarista tradicional”, mostra o documento.

Em 2022, completados dez anos da aprovação do Código Florestal, a promotora de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP/RS), Annelise Steigleder abordou em evento do observatório a falta de proteção jurídica do bioma. A promotora informou que, em julho de 2015, após o decreto posteriormente validado pelo código estadual, a promotoria ingressou com ação civil pública contra o Estado com o objetivo de assegurar a manutenção da reserva legal nas áreas do bioma com atividade pecuária. A ação ainda está pendente de julgamento final.

Mais recentemente, o Congresso Nacional ainda ampliou o risco da classificação para outros biomas.
Em março deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei nº 364/19, que considera formas de vegetação nativa ‘predominantemente não florestais’, como campos gerais, campos de altitude e campos nativos, que serão consideradas áreas rurais consolidadas.

De acordo com análise da SOS Mata Atlântica, a medida aprovada na comissão deixa desprotegidos 48 milhões de hectares de vegetação não florestal no Brasil.

A nova proposta também anula a aplicação da Lei da Mata Atlântica e de qualquer lei especial de proteção ambiental em todo território nacional, ao dispersar “disposições conflitantes contidas em legislações esparsas, como aquelas que se referem apenas a parcelas do território nacional”, caso da legislação.

A medida, assim, renega a importância dos campos nativos, áreas estratégicas para manutenção da biodiversidade e da segurança hídrica e climática. O projeto deve seguir para apreciação do Senado Federal.

Texto: Júlia Beatriz Oliveira

Observatório do Código Florestal assina carta pela aplicação da lei europeia que regula a importação de produtos livres de desmatamento 

Legislação cobra verificação rigorosa contra importação de commodities provenientes de áreas com desmatamento ilegal  

O Observatório do Código Florestal (OCF) se uniu a 24 organizações e redes da sociedade civil e assinou uma carta destinada à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen com solicitação à implementação do novo Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, o EUDR (sigla em inglês) 

Na prática, a EUDR estabelece que, para entrar em território europeu, as commodities devem passar por uma verificação rigorosa para evitar a importação de produtos provenientes de áreas com desmatamento ilegal. A lei foi aprovada em 2013, mas ainda carece de regulamentação. 

Em relação à viabilidade de sua aplicação em relação ao impacto nas atividades com maior risco de desmate, como a produção de carne bovina, cacau, café, óleo de palma, soja, borracha e madeira, numerosos estudos destacam casos de produtores de commodities que já estão atendendo aos requisitos, mostra o documento. “A nova aplicação não cria requisitos técnicos novos e inatingíveis, mas, pelo contrário, baseia-se em estruturas de transparência estabelecidas de várias maneiras. Portanto, as empresas não vão começar do zero, mas sim aproveitar muitos elementos operacionais já existentes.”, discorre. 

O adiamento da implementação da normativa tem gerado alertas, no Brasil, em prol da defesa do Cerrado e da Amazônia, biomas que podem perder ainda mais vegetação nativa com o eventual atraso em colocar em prática a exigência de importações livres de desmatamento. 

O documento parte do princípio de que como a EUDR ainda não se tornou aplicável, os números de desmatamento permanecem em níveis elevados e prejudicam a capacidade de adaptação dos ecossistemas às mudanças climáticas. A carta salienta ainda os impactos negativos da degradação ambiental, que gera desrespeito aos direitos humanos por meio de processos como apropriação de terras, despejos forçados e violência generalizada aos povos indígenas e comunidades tradicionais. 

Entre as principais penalidades para aqueles que não cumprirem com a lei, aprovada em abril de 2024, estão a suspensão do comércio importador, a apreensão ou completa destruição de produtos, e multas em dinheiro que podem corresponder até 4% do valor anual arrecadado pela operadora responsável. 

Leia a carta completa aqui:  Carta “Cada segundo conta para proteger as florestas e ecossistemas globais”