OCF destaca a importância dos Programas de Regularização Ambiental na VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica

28 de julho de 2026 – Entre os dias 27 e 31 de julho de 2026, o campus da Universidade de Brasília (UnB) recebe a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, o maior encontro nacional dedicado à restauração de ecossistemas. Durante o evento, o Observatório do Código Florestal (OCF) reforçou a importância dos Programas de Regularização Ambiental (PRA) como instrumento estratégico para impulsionar a restauração da vegetação nativa e contribuir para o alcance das metas do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG).  

O secretário executivo do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, foi um dos palestrantes da primeira sessão plenária do evento, que abordou a “Governança da Restauração no Brasil e a Agenda do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg)”.  

O painel, que contou com a mediação do consultor ambiental Raul Silva Telles do Valle, debateu os caminhos para integrar o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa às políticas públicas e aos instrumentos de gestão territorial no país. Ainda participaram da mesa o Diretor de Florestas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Thiago Belote, o analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Alexandre Bonesso Sampaio e a analista ambiental do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais, Janaína Mendonça Pereira. 

A participação do OCF reafirmou o papel central da implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa para que o Brasil cumpra suas metas de restauração em larga escala. Na visão da rede, a recuperação de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais em propriedades privadas é um pilar indispensável para conectar a conservação da biodiversidade ao desenvolvimento socioambiental.  

Durante a plenária, o Secretário Executivo do Observatório destacou a importância dos Programas de Regularização Ambiental como instrumento estratégico para impulsionar a restauração da vegetação nativa. Em sua fala, ressaltou que o avanço da análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e da regularização ambiental é fundamental para viabilizar a implementação do PRA e o alcance das metas do PLANAVEG. 

O avanço do PLANAVEG depende diretamente do progresso da análise do Cadastro Ambiental Rural  e da regularização ambiental dos imóveis rurais. A meta de recuperar 9 milhões de hectares de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente em propriedades privadas exige um processo de análise do CAR mais ágil e eficiente. Fortalecer essa agenda, com investimentos em automação, integração de bases de dados confiáveis e aperfeiçoamento do arcabouço normativo, é fundamental para acelerar a implementação dos Programas de Regularização Ambiental, ampliar a segurança jurídica e viabilizar o cumprimento das metas de restauração previstas no PLANAVEG”, enfatiza Elvira. 

Sobre 2026 

Organizado pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), o evento consolida-se como o principal espaço de convergência entre ciência, gestão pública, saberes tradicionais e sociedade civil. Realizada a cada dois anos, a Conferência Brasileira de Restauração Ecológica promove o intercâmbio de inovações, pesquisas e experiências práticas.  

A edição de 2026 no Centro Comunitário Athos Bulcão e Anfiteatros do ICC, na UnB, conta com uma programação diversificada composta por sessões plenárias, mesas-redondas, apresentações de trabalhos, rodadas de conversas e visitas de campo. 

Saiba mais em: https://sobrestauracao.com.br/ 

Audiência Pública em Mato Grosso aponta risco aos avanços do Código Florestal diante de insegurança institucional na Assembleia Legislativa 

Mais de uma dezena de propostas em tramitação acelerada visam anistiar sanções e afrouxar o licenciamento de atividades econômicas nos biomas do estado 

O estado de Mato Grosso vive uma grave contradição na agenda socioambiental: ao mesmo tempo em que se posiciona na vanguarda da implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (12.651/2012), o avanço de uma dezena de propostas legislativas na Assembleia Legislativa estadual (ALMT) ameaça desconfigurar as metas climáticas e criar um cenário de profunda instabilidade. O alerta foi um dos eixos centrais da audiência pública realizada no parlamento mato-grossense nessa quinta-feira (25). 

O objetivo da audiência, que foi proposta pelo deputado Lúdio Cabral (PT) em articulação com o Observatório do Código Florestal (OCF) e o Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa-MT), foi debater de forma integrada o impacto de pelo menos 18 projetos de lei que tramitam na Casa e que visam flexibilizar regras de licenciamento, anistiar sanções e fragilizar áreas de preservação permanente (APP) e de reserva legal. 

Além da presença do secretário-executivo do OCF, Marcelo Elvira, o debate contou com a contribuição de Edilene Fernandes do Amaral, coordenadora jurídica do Observatório Socioambiental de Mato Grosso, Herman Oliveira, secretário-executivo do Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (FORMAD), Alice Thuault, diretora executiva do Instituto Centro de Vida (ICV), o pesquisador Lucas Barros (UFMT/Universidade da Colômbia Britânica), além de representantes do IBAMA, ICMBio, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e lideranças de comunidades de base, como a Sociedade Fé e Vida e os Comitês Populares de Defesa das Águas e do Clima da Bacia do Rio Paraguai, que trouxeram a cultura dos territórios para o centro do debate. 

Na abertura da audiência, o deputado Lúdio Cabral chamou a atenção para o ritmo acelerado com que os projetos avançam nas comissões e no plenário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, o que muitas vezes camufla a real dimensão dos estragos ecológicos acumulados. “A Assembleia é muito dinâmica, o ritmo aqui é muito acelerado, especialmente em plenário. Como são muitos projetos, a gente acaba não tendo a noção do conjunto e do que isso representa em termos sistêmicos para a fragilização da nossa legislação”, alertou o parlamentar, reforçando a importância de unificar as frentes de resistência institucional ambiental.

Ameaças ao Código Florestal 

Em sua exposição, Marcelo Elvira destacou que Mato Grosso é historicamente uma referência nacional na gestão ambiental das propriedades rurais. De acordo com dados do estudo da Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) trazidos por ele, o estado é o que possui o maior número de Termos de Compromisso ambiental assinados no país (3.229) e foi pioneiro em ferramentas como o CAR Digital e o uso do WhatsApp para comunicação com proprietários rurais. Cerca de 16% dos cadastros locais já têm análises concluídas pelo Serviço Florestal, o dobro da média nacional. 

No entanto, essa liderança está em xeque devido à falta de coesão entre os poderes. Recentemente, a Procuradoria do Estado submeteu ao Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da ADPF 743, um plano detalhado de combate ao desmatamento e queimadas, assumindo o compromisso de intensificar o monitoramento remoto e a regularização ambiental. 

“O Estado se compromete com o Supremo Tribunal Federal a implementar uma lei que já foi ratificada pela própria corte, enquanto a Assembleia Legislativa se posiciona num caminho diferente. É uma situação muito perigosa e arriscada. Isso cria uma insegurança institucional gigantesca”, advertiu Marcelo Elvira. 

O secretário-executivo do OCF lembrou que o texto atual do Código Florestal foi fruto de um dos acordos políticos mais complexos e longos da história do Congresso Nacional, equilibrando os interesses do setor produtivo e de ambientalistas. Ele reforçou que, embora sempre haja o que aperfeiçoar, o foco absoluto hoje deve ser implementar a lei de forma rigorosa, pois alterações constantes no texto enfraquecem a estrutura regulatória e descumprem os acordos firmados. 

A coordenadora jurídica do Observa-MT destacou o fato de que o conjunto de 18 projetos de lei destacados no balanço não representa todas as propostas de legislação que fragilizam a implementação do Código Florestal em Mato Grosso. Conforme destacado por Edliene Amaral, há diversas outras medidas em tramitação que são favorecidas pelo ritmo acelerado da discussão na Casa de Leis.

“Há, na verdade, um grupo muito maior de projetos que podem causar prejuízos ao cumprimento do Código Florestal. Alguns projetos têm pareceres contrários e outros têm pareceres favoráveis nas comissões. Porém, mesmo com os pareceres contrários das comissões técnicas, esses pareceres podem ser derrubados quando vão para discussão no Plenário. E, muitas vezes, pelo ritmo acelerado do debate na Assembleia, eles podem passar pelos deputados e serem votados sem que se perceba o real dano que podem provocar ao meio ambiente”, disse a representante do Observa-MT.

Ativos e Passivos e a economia da restauração 

O “Termômetro do Código Florestal“, ferramenta de monitoramento desenvolvida por organizações do OCF, aponta que Mato Grosso possui hoje um passivo de mais de 4,5 milhões de hectares de reserva legal e 300 mil hectares de APPs que precisam ser recuperados. Por outro lado, o estado detém um expressivo ativo econômico e ecológico: um excedente de 5,6 milhões de hectares de vegetação nativa mantida por proprietários rurais além da exigência legal. 

Marcelo defendeu que a solução para os passivos não deve ser o desmonte da lei, mas sim a aplicação de incentivos econômicos previstos na própria legislação federal, como as Cotas de Reserva Ambiental (CRA) e o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Ele explicou que a lógica deve ser direta e recompensar quem protege o meio ambiente, garantindo que quem possui passivos faça a regularização e quem detém excedentes florestais receba benefícios financeiros, o que protege a reputação do mercado nacional e internacional. 

Além do ganho climático, a restauração florestal obrigatória representa uma engrenagem econômica potente para o estado. Com base em estudos que projetam a geração de 0,42 emprego por hectare recuperado, a regularização das reservas legais em Mato Grosso teria o potencial de gerar mais de 1,9 milhão de postos de trabalho, movimentando fortemente toda a economia voltada para o fornecimento de insumos, coleta de sementes e manejo sustentável. 

Risco de mercado e crise climática 

O bombardeio de projetos flexibilizadores no parlamento estadual também foi apontado pelo secretário executivo como um fator de alto risco reputacional para o agronegócio mato-grossense. Em um cenário global com exigências de sustentabilidade e barreiras comerciais cada vez mais rígidas contra o desmatamento, a alteração constante das premissas ambientais locais pode provocar sérios boicotes e sanções econômicas por parte de compradores e mercados globais. 

Amaral destaca também o risco reputacional vinculado à própria Assembleia Legislativa diante da aprovação de projetos de flexibilização das normas socioambientais. “Muito tem sido gasto em termos de dinheiro público, energia e exercício posterior do Judiciário para resolver as questões envolvidas na discussão desses projetos. Por outro lado, não se preserva o benefício do debate anterior de forma ampla e que poderia evitar esses gastos e o risco reputacional”, apontou a coordenadora jurídica do Observa-MT.

Ao encerrar suas considerações, Marcelo Elvira reiterou que a implementação efetiva da lei é, fundamentalmente, uma estratégia crucial de adaptação e mitigação face aos eventos climáticos extremos e ao estresse hídrico que já afetam diretamente a produtividade do próprio agro. O OCF reafirma que qualquer política pública de sucesso pressupõe transparência, dados científicos e participação social, colocando-se à disposição para construir pontes de diálogo que assegurem o avanço da regularização ambiental com segurança jurídica e proteção aos ativos naturais do país.

Audiência pública discute retrocessos na legislação ambiental de MT

O evento contará com a participação de organizações da sociedade civil que apresentarão um relatório técnico sobre como as produções legislativas têm afetado o meio ambiente no estado

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) discutirá os retrocessos na legislação ambiental que fragilizam o cumprimento do Código Florestal no estado. O debate será realizado durante uma audiência pública na manhã do dia 25 de junho na Sala das Comissões.

O Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa-MT) e o Observatório do Código Florestal (OCF), com apoio do Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad), compartilharão dados técnicos no evento sobre como o atual panorama legislativo do estado prejudica a proteção do meio ambiente.

A partir de elementos jurídicos, o relatório técnico evidenciará de que forma a legislação ambiental no estado tem afrontado prerrogativas constitucionais e atuado na contramão de decisões do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Para as instituições, as mudanças legislativas enfraquecem o cumprimento do Código Florestal ao dificultarem a conservação de áreas protegidas, o controle do desmatamento e a recuperação de passivos ambientais.

Histórico de retrocessos

As organizações apontam que, sob a justificativa frequente de defesa do desenvolvimento econômico e desburocratização por meio de flexibilizações normativas, a ALMT tem colocado a proteção do meio ambiente em xeque ao longo dos últimos anos.

“A Casa de Leis tem avançado com a fragilização do Código Florestal por meio de projetos de lei que ampliam anistias, reduzem a proteção de biomas e aumentam as áreas passíveis de exploração e que, de forma reiterada, tramitam em regime de urgência e sem a garantia ampla de debate público”, aponta a coordenadora jurídica do Observa-MT, Edilene Amaral.

A Lei nº 12.653/2024, que legalizou a pecuária em Áreas de Preservação Permanente do Pantanal, é uma das normativas que faz parte desta agenda de flexibilizações. Pautada na Assembleia por meio do projeto de lei nº 1478/2024, a então proposta foi apresentada e aprovada em segunda votação no intervalo de oito dias. Posteriormente, o projeto foi sancionado e se tornou lei menos de um mês após a apresentação.

Projetos em tramitação

Amaral alerta ainda para os riscos ambientais e implicações jurídicas das propostas legislativas em curso no Parlamento, a exemplo dos projetos de lei complementar nº 36/2025 e 18/2026. O primeiro tenta ampliar a possibilidade de exploração comercial de Reserva Legal em desacordo com a Lei nº 12.651/2012, enquanto o segundo propõe uma redefinição dos limites dos biomas no estado, invadindo uma competência privativa da União.

Em ambos os casos, a coordenadora aponta que há esforços legislativos para o atendimento das demandas de setores econômicos em detrimento da proteção ambiental, em desacordo com o ordenamento legal já estabelecido e sob o risco de judicialização posterior.

Para o secretário executivo do OCF, Marcelo Elvira, a abertura do debate público e a transparência de dados em torno das discussões legislativas que impactam o cumprimento do Código Florestal são essenciais nos níveis estaduais, sobretudo em Mato Grosso.

“O acompanhamento dos projetos de lei em tramitação nos estados é fundamental, especialmente em Mato Grosso, onde propostas legislativas têm potencial de influenciar debates em outras regiões do país. Quando normas estaduais enfraquecem ou entram em conflito com a Lei Federal de Proteção da Vegetação Nativa, cria-se um cenário de insegurança jurídica que frequentemente resulta em judicialização. Isso acaba atrasando a implementação da legislação ambiental e prejudicando a construção de soluções efetivas para a conservação e o desenvolvimento sustentável”, disse Elvira.

O secretário executivo destaca que o relatório técnico que será apresentado na audiência detalhará o panorama legislativo a partir de cinco eixos: reclassificação de biomas; flexibilização de APPs e Reserva Legal; anistia ambiental; desmonte do licenciamento e dos mecanismos de controle e derrubada de vetos.

O que: audiência pública sobre retrocessos à proteção ambiental em Mato Grosso

Quando: às 9h do dia 25 de junho

Onde: Sala das Comissões da Assembleia Legislativa de Mato Grosso

Foto: Fablício Rodrigues / ALMT

Seminário debate ciência e políticas públicas para a conservação e regularização ambiental do Bioma Pampa 

Evento reuniu pesquisadores, gestores públicos, sociedade civil, setor produtivo para discutir o avanço do PPPampa, zoneamento ecológico-econômico e gargalos no licenciamento ambiental 

Com o objetivo de fortalecer o diálogo entre a produção científica, as esferas de tomada de decisão e a sociedade civil, o Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sediou o Seminário “Políticas Públicas e ciência no Pampa: regularização ambiental e recursos hídricos“. O evento, organizado pelo Observatório do Código Florestal (OCF) em parceria com instituições locais, propôs um espaço estratégico para a avaliação e o aprimoramento dos mecanismos de governança ambiental no bioma. 

A programação foi estruturada em mesas temáticas que reuniram representantes do Governo Federal, Governo Estadual, da academia, da sociedade civil organizada, do setor produtivo, Ministério Público e de Povos e Comunidades Tradicionais, promovendo uma análise transversal das oportunidades e desafios para a conservação do Pampa.  

O encontro ocorre em um momento considerado crucial para a agenda socioambiental da região que demanda uma análise setorial aprofundada, sobretudo diante dos dados do MapBiomas que apontam o Pampa como o bioma com a maior perda proporcional de vegetação nativa no país nos últimos 40 anos, e do atraso do Estado em implementar a Lei de Proteção da Vegetação Nativa – dos mais de 660 mil cadastros inseridos no SICAR, pouco mais de 30 foram analisados e estão em conformidade com a lei 

Mesa 1: Desafios e oportunidades para a proteção do Pampa 

O debate de abertura do seminário, mediada por Marcelo Elvira, caracterizou-se por sua marcante pluralidade institucional. O painel reuniu vozes do Governo Federal, do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, do Ministério Público, da academia, de povos e comunidades tradicionais, além de representantes do setor produtivo e da sociedade civil organizada. 

A mesa foi composta por Pedro de Almeida Costa, Vice-reitor da UFRGS, Rodrigo Dutra, Superintendente Substituto do IBAMA, Ramiro Hofmeister, Coordenador do grupo de trabalho de campos naturais Conabio do MMA, Cátia Viviane Gonçalves, diretora de biodiversidade da Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (SEMA/RS), Paula Hofmeister, coordenadora da comissão de meio ambiente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (FARSUL), Annelise Steigleder, promotora de justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), Charlene Santana , representante do Comitê dos Povos Tradicionais do Pampa e Rodrigo Dutra , superintendente substituto do IBAMA.  

As manifestações convergiram para a necessidade urgente de um diálogo amplo e intersetorial, fundamentado no reconhecimento mútuo e na consideração das particularidades e demandas de cada um dos segmentos envolvidos. Foi defendido a relevância de um alinhamento interfederativo harmônico entre a União, os estados e os municípios como premissa para a eficácia das agendas ambientais. 

Sob essa ótica, o debate participativo foi apontado como o principal instrumento para mitigar conflitos e evitar a judicialização de normativas e regulamentos territoriais. De acordo com as análises, a construção coletiva de regras previne a aprovação de preceitos inadequados à realidade local, assegurando estabilidade institucional e robusta segurança jurídica para todas as partes. 

Somado a isso, os participantes ressaltaram o papel estratégico da ciência como base técnico-científica indispensável para a formulação e implementação de políticas públicas. Também foi argumentado que o fortalecimento da governança ambiental e a inclusão efetiva das comunidades tradicionais nos espaços de decisão potencializam a capacidade do estado e do bioma em gerar arranjos de produção sustentável com alto valor agregado. 

Mesa 2: Apresentação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do Pampa (PPPampa) 

Em 2025, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) lançou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Pampa (PPPampa), estabelecendo diretrizes essenciais para o ordenamento do território. Além disso, foi publicado recentemente o Decreto Estadual nº 58.804/2026, que regulamenta os procedimentos de regularização ambiental no Rio Grande do Sul.  

O segundo painel focou nesses dois instrumentos. A mesa foi mediada pelo coordenador técnico de políticas públicas do Instituto Curicaca, Alexandre Krob e reuniu o analista ambiental do MMA, Cassio Rabuske da Silva e a analista da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Giovana Santi.  

O debate concentrou-se na articulação de diretrizes nacionais e estaduais no âmbito da regularização. Cássio Rabuske expôs o panorama das ações federais integradas ao PPPampa, ressaltando a urgência de se consolidar um regime jurídico que defina critérios rigorosos de supressão permitida, mecanismos de compensação ambiental e o mapeamento das ecorregiões do bioma. Como exemplo prático de avanço, destacou o projeto do corredor biológico do Rio Pelotas, vinculado a compensações da Usina Hidrelétrica de Barra Grande. 

“A gente precisa evoluir para ter um regime jurídico para o Pampa que também defina percentuais máximos de supressão, compensação, que tenha um mapa para as ecorregiões […] Se tem uma ecorregião como os Campos Sulinos, que resta menos de 1% desses campos, não tem que ter uma política diferenciada para esses campos já exageradamente suprimidos?”, questionou, Cássio.  

A mesa também abordou a questão do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) e da segurança jurídica do licenciamento. O professor Paulo Brack contribuiu com uma análise histórica e jurídica, defendendo o ZEE como um instrumento indutor indispensável para frear a conversão ilimitada dos ecossistemas frente às pressões econômicas. 

Complementando a discussão sob a ótica da gestão pública, Giovana, representante da Fepam, pontuou os desafios práticos vivenciados pelo corpo técnico dos órgãos ambientais. Ela enfatizou a necessidade de que os mapas científicos de áreas prioritárias possuam uma regulamentação jurídica clara e vinculante, fornecendo o amparo normativo necessário para subsidiar as tomadas de decisão e as restrições nos processos formais de licenciamento. 

“A gente tem um mapa das áreas prioritárias. A gente, enquanto órgão licenciador, aplicamos as regras. E a gente aplica a lei. Nós não podemos aplicar um mapa que não tenha uma regra”, ressaltou.  

Mesa 3: Aspectos hídricos relacionados ao Pampa, com especial atenção para definições sobre as áreas de preservação permanente 

A segunda metade do seminário dedicou-se à interface entre a dinâmica hidrológica do bioma e a aplicação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN). O debate foi mediado pelo presidente da Associação dos Servidores da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul (Assema), Rogério Chimanski.  

A mesa contou com a participação de Tatiana Silva, professora associada do Instituto de Geociências da UFRGS e Nájila Rocha, secretária do Instituto de Conservação Eco dos Campos, Guilherme Marques, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS), Roberto Verdum e Valério Pillar, também professores da UFGRS. 

O bloco teve como pano de fundo a recente Nota Técnica “Banhados, cursos d’água intermitentes e a aplicação de APPs no Bioma Pampa, desenvolvida pelo OCF e especialistas do Grupo de Trabalho do Pampa, a qual alerta que interpretações incorretas sobre os fluxos hídricos regionais podem reduzir drasticamente a efetividade das Áreas de Preservação Permanente (APPs). 

Roberto Verdum e Guilherme Marques detalharam as vulnerabilidades das bacias hidrográficas gaúchas frente ao uso do solo e às mudanças climáticas, reforçando o valor ecológico dos banhados e dos cursos d’água intermitentes na manutenção do equilíbrio hidrológico regional. 

As exposições científicas e de diagnóstico também contaram com as contribuições de Tatiana e Nájila Rocha, que trouxeram dados detalhados sobre o monitoramento da vegetação campestre e sua estrita relação com a recarga de aquíferos.  

Tatiana destacou que é preciso separar o que é protegido do que não é. “E fato é que na natureza e no bioma Pampa a gente percebe com muita facilidade que as dinâmicas ecossistêmicas elas não são cartesianas. A gente precisa de uma proteção desde a cabeceira, desde as áreas mais secas até as áreas mais úmidos e transformar essa legislação”, ressaltou. 

Somado a isso, Najila explicou a relevância de se pensar a necessidade de preservar os mais diferentes sistemas que formam o Pampa. “No final das contas o que a gente deve se preocupar não é o que são as nascentes, mas é o que a gente precisa preservar. Então a gente tem sistemas nas mais diferentes escalas, as escalas são interconectadas, são interdependentes e tem um determinado funcionamento e uma estrutura, e isso que provê os serviços ecossistêmicos”, pontou. 

Segundo o secretário-executivo do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, o Seminário buscou aproximar diferentes atores do cenário ambiental para construir saídas baseadas em evidências. “Diante dos desafios que o Pampa enfrenta, o evento, que não se esgota nele mesmo, continua no caminho de cumprir o papel crucial de traduzir o conhecimento técnico em propostas viáveis para a formulação de políticas públicas. É um passo fundamental para garantir que as novas ferramentas de gestão atendam com eficácia às singularidades do bioma“, pontuou. 

OCF realiza encontro para debater políticas públicas, regularização ambiental e recursos hídricos no bioma Pampa

Especialistas, gestores públicos e representantes da sociedade civil se reunirão em Porto Alegre para discutir a implementação de instrumentos de regularização ambiental, a proteção da vegetação nativa e os desafios da gestão dos recursos hídricos no bioma Pampa.

No próximo dia 17 de junho, a partir das 09h, o Observatório do Código Florestal (OCF) e organizações parceiras gaúchas realizam em Porto Alegre (RS), no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o encontro “Políticas Públicas e ciência no Pampa: regularização ambiental e recursos hídricos”, iniciativa que reunirá pesquisadores, gestores públicos, representantes da sociedade civil e instituições ligadas à agenda ambiental para discutir desafios e oportunidades relacionados à conservação e ao uso sustentável do bioma.

O Pampa é um dos biomas brasileiros que mais sofreu transformações em sua cobertura vegetal nas últimas décadas, em razão das mudanças no uso do solo e da conversão de áreas nativas. Esse cenário traz implicações diretas para a conservação da biodiversidade, a manutenção dos serviços ecossistêmicos e a disponibilidade de recursos hídricos, reforçando a necessidade de fortalecer instrumentos de gestão e regularização ambiental.

De acordo com o secretário-executivo do OCF, Marcelo Elvira, o encontro pretende criar um espaço de diálogo entre pesquisadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil e comunidades locais, abordando temas fundamentais para o futuro do Pampa, como regularização ambiental, proteção da vegetação nativa e gestão dos recursos hídricos.

“O Pampa reúne algumas das discussões mais estratégicas da agenda ambiental brasileira atualmente. Estamos falando de um bioma que enfrenta pressões crescentes sobre sua vegetação nativa e seus recursos hídricos, ao mesmo tempo em que demanda avanços na implementação de instrumentos previstos pela legislação ambiental. Este evento busca justamente aproximar ciência, gestão pública e sociedade para qualificar o debate e contribuir para a construção de políticas públicas baseadas em evidências adequadas às características do território”, afirma Marcelo. 

Ao longo da programação, os participantes debaterão temas estratégicos para a agenda ambiental da região, incluindo o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do  Pampa (PPPampa), elaborado em 2025 pelo Ministério do Meio Ambiente, a implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (Lei nº 12.651/2012), o novo decreto de regularização ambiental do Rio Grande do Sul (58.804/26) e os desafios da gestão dos recursos hídricos diante das características ecológicas e produtivas do bioma.

O encontro busca promover o diálogo entre ciência, políticas públicas e sociedade, contribuindo para a construção de soluções baseadas em evidências para a conservação do Pampa e para o aprimoramento dos instrumentos de governança ambiental.

Além do OCF, o evento é realizado pela Coalizão Pelo Pampa, pelo Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa, pela Rede Campos Sulinos, pela Associação dos Servidores da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado do Rio Grande do Sul (ASSEMA/RS), pela Rede Sul de Restauração Ecológica e pela Curicaca. A iniciativa conta com o apoio do Sindicato Cidadão (SEMAPI), do Sindicato dos Servidores de Nível Superior do Poder Executivo do Estado do Rio Grande do Sul (SINTERGS), da Associação dos Servidores da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (ASFEPAM), do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Confira a programação:

Mesa 1 (9h às 10h) – Mesa de abertura com autoridades. Desafios e oportunidades para a proteção do Pampa. 

Mesa 2  (10h às 12h) – Apresentação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do Pampa (PPPampa) e falas sobre o Programa de Regularização Ambiental (decreto 58.804/26). 

Mesa 3 (14h às 17h) – Aspectos hídricos relacionados ao Pampa, com especial atenção para definições sobre as áreas de preservação permanente, com base em Nota Técnica  elaborada pelo Observatório do Código Florestal e parceiros. 


Seminário: Políticas Públicas e ciência no Pampa: regularização ambiental e recursos hídricos

Data: 17 de junho de 2026

Horário: 9h às 17h

Local: Centro Cultural da UFRGS

Inscrições: formulário disponível pelo link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSez6lRKM1dwM2JwV7XsRRu3R1Ke3Ir-dFRLBgqXXl6-YtxBxQ/viewform

Expedição Pampa promove debates de temas essenciais para conciliar proteção ambiental e produção sustentável no bioma 

Serão percorridos 1,5 mil quilômetros para promover o intercâmbio sobre a implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa

Entre os dias 06 e 13 de outubro, o Observatório do Código Florestal (OCF) realiza a “Expedição Pampa”. A ação do OCF faz parte de uma iniciativa que busca alavancar o debate sobre os desafios e oportunidades da implantação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (Lei Federal nº 12.651/2012) no sul do país, como a conciliação da proteção ambiental com a produção agropecuária sustentável no próprio Pampa.

Serão oito dias de encontros e rodas de conversas com produtores rurais, lideranças de povos e comunidades tradicionais, organizações sociais, pesquisadores, órgãos ambientais do governo e Ministério Público. Com início na cidade de Porto Alegre, a expedição irá passar pelos municípios de Tapes, São Lourenço do Sul, Pelotas, Bagé, Dom Pedrito, Sant’Ana do Livramento, Quaraí e Caçapava do Sul.

Confira mais informações: Release Expedição Pampa

 

Aquecimento para a COP30: Rio Climate Action Week reúne especialistas para discutir soluções à crise climática

Encontro debateu a importância do Código Florestal no alcance das metas climáticas e seus avanços, reforçando que o compromisso político é decisivo para destravar a regularização ambiental

Entre os dias 23 e 29 de agosto a Rio Climate Action Week mobilizou encontros e debates em um momento estratégico de preparação rumo à COP30. O Observatório do Código Florestal esteve presente na programação com o evento “Diálogos sobre o Código Florestal: Regularização Ambiental e Proteção Florestal”. Realizado em parceria com a BVRio, a Amigos da Terra -Amazônia Brasileira e outros parceiros, o encontro abordou os desafios, avanços e soluções do Código Florestal para avançar nos compromissos climáticos do Brasil.

No painel “Clima, vegetação nativa e regularização ambiental” foram discutidos os avanços dos compromissos climáticos nacionais e da regularização ambiental em diferentes níveis de governança. Como colocado por Roberta del Giudice, Diretora de Florestas e Políticas Florestais da BVRio: “Estudos apontam que o impacto da degradação dos ecossistemas gera uma perda anual global de 20 trilhões de dólares, então é muito relevante termos esses dados para promover a implementação do Código Florestal”.  O Secretário Executivo do Observatório do Código Florestal e moderador da mesa, Marcelo Elvira, também mencionou os painéis de restauração que ocorreram durante o evento: “Esses painéis conectaram a importância do Código Florestal com a agenda de restauração, destacando seu papel como meta climática”.

No contexto político, a Líder de Incidência Política da WWF, Ana Carolina Crisóstomo, pontuou sobre os impactos das divergências políticas no avanço do Código Florestal: “Hoje temos pelo menos 129 propostas de alteração legislativa do Código Florestal no Congresso, sendo 84 delas para reduzir a proteção que o Código traz. Essa pressão reverbera tanto no âmbito federal quando dos Estados, então o interesse e compromisso político é central para conseguirmos avançar”.

A palestrante também destacou a descontinuidade na implementação de públicas nas transições de governos: “Isso é muito problemático para o Código Florestal, por exemplo, o SICAR em 2012 fazia parte do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) no âmbito do MMA. Em 2017 o SFB passa a ficar no âmbito do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento e em 2023 o SFB volta para o MMA, mas temos a figura do Ministério de Gestão e Inovação (MGI) que está abrigando a estrutura tecnológica do SICAR nessa gestão compartilhada com o SFB. Então imaginem a complexidade que isso representa em termos de transferência de tecnologia e normativas. Entendo que isso é um desafio que não é simples de superarmos” finaliza Ana Carolina.

Em relação às atividades a nível federal, o Diretor do Cadastro Ambiental Rural do MGI, Henrique Dolabella, falou sobre a necessidade de concretizar a transversalidade da dimensão ambiental nas políticas públicas: “Um elemento fundamental para a gente conseguir fazer a qualificação das informações é o plano de integração e aprimoramento dos sistemas de gestão ambiental e territorial, do governo federal. É integrar as bases de dados fundiária, territorial, ambiental. Isso significa os sistemas do INCRA, dos cartórios, do CAR, mas também os sistemas de gestão ambiental, por parte dos estados.”.

Considerando as diferentes capacidades dos estados, Dolabella também mencionou o que já está sendo feito para acelerar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) nesse sentido: “Para tratar essa questão, foi feito um diagnóstico dessas capacidades e criada uma rede de gestores do CAR, que é uma rede de gestão a nível técnico dos estados, para compartilhar boas experiências, normativas, boas práticas, e permitir esse intercâmbio mais fluido e rápido de procedimentos e normas para agilizar essa análise” finaliza.

A mesa também contou com as contribuições Beto Mesquita, Diretor de Paisagens da Conservação Internacional (CI); e Marcus Vinícius Alves, Diretor de Regularização Ambiental Rural do Serviço Florestal Brasileiro (SFB).

Já o painel “A regularização ambiental nos estados” reuniu representantes de 11 Estados, entre palestrantes e participantes do evento, que tiveram a oportunidade de debater os desafios na implementação do Programa de Regularização Ambiental (PRA) em suas respectivas unidades federativas. Foi apresentado o que já tem sido feito – e funcionado – para avançar nas regularizações dos imóveis rurais, destacando a importância dessa troca para superar barreiras comuns: “A gente conseguiu promover esse intercâmbio de conhecimento, mas também das experiências exitosas e boas práticas em relação ao Código Florestal”, segundo Jarlene Gomes, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e moderadora da mesa.

A participante do evento, Janaina Mendonça, do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF) reiterou que o cumprimento do Código Florestal deve ser uma responsabilidade compartilhada e que para operacionalizar isso é fundamental mobilizar os interesses territoriais, mesmo diante de todos os desafios relacionados às validações do CAR. “O que a gente quer é a vegetação nativa nas áreas que a lei protege, então não podemos perder de vista esse objetivo. O que a gente quer é gerar essa cultura da regularização ambiental nos territórios, é isso que fica” finaliza.

A mesa foi composta por Joana Chiavari, da Climate Policy Initiative (CPI); Raul Protázio, da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS-PA); Marina Fernandes Dias, do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF-MG); Leonardo das Neves Carvalho, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Acre (SEMA-AC); e Raul do Valle, advogado ambiental, com profundo conhecimento no Código Florestal.

Os encontros aconteceram presencialmente no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) no Rio de Janeiro, reunindo e promovendo a troca de experiências e o diálogo entre mais de 120 participantes.

Oficina no Congresso Nacional destaca importância da implementação do Código Florestal para enfrentar crise climática no Brasil

Evento reuniu especialistas e apresentou plataforma de monitoramento da implantação da legislação

Para enfrentar os efeitos e agravamento da crise climática no Brasil, é preciso cumprir a lei. Essa foi uma das constatações da oficina “Código Florestal como lei essencial para adaptação e mitigação climática no país”, realizada pelo Observatório do Código Florestal em conjunto com a Frente Parlamentar Mista Ambientalista no Congresso Nacional na última quinta-feira, 27.

O evento voltado para assessores parlamentares reuniu especialistas e representantes da sociedade civil e do Governo Federal para discutir a implementação da lei de proteção da vegetação nativa, conhecida como Código Florestal (Lei nº 12.650/2012), e seu papel central no combate às mudanças climáticas, na conservação da biodiversidade e na promoção de uma produção agrícola sustentável.

As atividades de uso da terra, em grande parte as agropecuárias, são as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa do país. Assim, a implementação efetiva do Código Florestal, que dispõe sobre esse uso, surge como caminho essencial para adaptação e mitigação climática. 

O secretário-executivo do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, abriu o evento destacando a relevância da lei como “uma política de Estado, não de governo, essencial para a adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas”. 

Ele ressaltou que, apesar dos avanços de registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) em propriedades privadas, com quase 8 milhões de imóveis cadastrados, apenas 3% dos cadastros foram analisados, o que representa um desafio significativo para a efetiva implementação da lei.

Um dos principais entraves discutidos pelos participantes foi a lentidão na análise dos cadastros pelos órgãos estaduais, muitas vezes devido à falta de capacidade técnica e recursos. 

“Temos uma base de dados com milhões de cadastros, mas muitos foram mal feitos, e os estados enfrentam dificuldades para processar essas informações”, explicou o especialista. Além disso, apenas cerca de 4 mil cadastros de territórios de povos e comunidades tradicionais, o chamado CAR PCTs, foram registrados em todo o país, um número ainda considerado muito baixo.

O CAR é a primeira etapa de implementação da lei, seguida dos Programas de Regularização Ambiental (PRA), que preveem a restauração e recuperação de áreas degradadas ou desmatadas em desacordo com a legislação.

Nesse sentido, o Termômetro do Código Florestal, uma plataforma do Observatório liderada pelo Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM), possui os dados que indicam o tamanho da área de passivo existente no país. No evento, Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM, apresentou o funcionamento da ferramenta que monitora a implementação da lei e fornece dados para subsidiar políticas públicas. 

“A ferramenta mostra que, apenas no Cerrado, perdemos 6 milhões de hectares de vegetação nativa em um ano. Precisamos urgentemente avançar na análise dos cadastros e na regularização ambiental”, alertou Gomes.

Diretamente relacionado à restauração e recuperação dessas áreas, o diretor de Florestas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Thiago Belote apresentou o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) que visa restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Do total, serão 9 milhões em áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais (RLs), categorias de proteção da lei. O plano foi revisado em 2024.

O Código Florestal é o pilar de qualquer ação de restauração no Brasil. Implementá-lo é garantir empregos, água, biodiversidade e enfrentar as crises climáticas de forma integrada”, afirmou Belote.

No evento, os participantes também destacaram a importância da integração entre políticas públicas, como o Planaveg, o Plano ABC e a taxonomia verde, para promover a restauração ecológica e a agricultura de baixo carbono. 

“Não precisamos reinventar a roda. Implementar o Código Florestal é a chave para conectar todas essas agendas e gerar impactos positivos para o país e o planeta”, concluiu ainda Marcelo Elvira. 

Além disso, os participantes ressaltaram a importância de evitar a aprovação de projetos com danos aos dispositivos de proteção ambiental previstos pela lei. 

“O Código Florestal é uma ferramenta fundamental para enfrentar a crise climática. Precisamos combater as ameaças de novas anistias e garantir que a lei seja implementada de forma eficaz”, declarou Nilto Tatto, deputado federal e presidente da Frente Parlamentar Mista Ambientalista. 

No evento, o Observatório do Código Florestal (OCF) lançou um painel de acompanhamento de propostas legislativas que interferem no Código Florestal. 

A ferramenta demonstra quantidade de projetos de lei em tramitação nocivos ou positivos para a implementação da lei, temas principais, principais autores e partidos com propostas favoráveis e outros dados, como notas técnicas e informações sobre os projetos de lei. 

A transmissão da oficina pode ser acessada pelo link.

SOBRE O TERMÔMETRO DO CÓDIGO FLORESTAL

O Termômetro do Código Florestal é uma iniciativa do Observatório do Código Florestal (OCF) desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM) e parceiros com objetivo de prover acesso à informação sobre o balanço da implementação do Código Florestal, a lei de proteção da vegetação nativa do país. 

Contribuíram para a construção do Termômetro, que pode ser acessado pelo website, especialistas do CSR (Centro de Sensoriamento Remoto) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), ICV (Instituto Centro de Vida), Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), ISA (Instituto Socioambiental), Instituto BVRio e AdT (Amigos da Terra Amazônia Brasileira).

Texto: Willian Oliveira

Evento sobre regularização ambiental será realizado em Alta Floresta na próxima sexta

Na próxima sexta (21), será realizado em Alta Floresta (MT) o Encontro sobre Regularização Ambiental da Agricultura Familiar em Mato Grosso. O objetivo do evento é discutir sobre o Programa de Regularização Ambiental (PRA) e quais são seus desafios e oportunidades em âmbito estadual. As inscrições estão abertas por meio do link abaixo.

O PRA é um conjunto de ações que têm o objetivo de regularizar os imóveis rurais que tenham áreas de preservação permanente e/ou reservas legais degradadas. Por meio do programa, a pessoa proprietária se compromete a recuperar sua área e, em troca, pode ter benefícios como a suspensão da multa decorrente de possíveis infrações ambientais por supressão irregular da vegetação nativa.

Em Mato Grosso, conforme dados do Sistema Mato-grossense de Cadastro Ambiental Rural (SIMCAR), dos 158.381 imóveis registrados, apenas 1.489 estão em processo de regularização ambiental.

Conforme explicou o analista do Núcleo de Inteligência Territorial do Instituto Centro de Vida (ICV) Weslei Butturi, o número baixo de áreas com compromisso de recuperação se deve ao ritmo lento de validação do CAR somado ao fato de que o processo exige assistência técnica, recursos e prazos a serem atendidos para a restauração das áreas degradadas.

“Uma das formas de superar esse problema pode ser a análise automatizada do CAR, que é uma estratégia muito promissora que pode aumentar o índice de projetos validados e consequentemente aumentar a adesão dos agricultores e agricultoras no programa”, disse.

O evento é destinado para agricultores e agricultoras familiares e pessoas que fazem parte de instituições de ensino e organizações públicas, privadas e do terceiro setor.

O gestor de projetos do ICV Eriberto Muller pontuou que a ideia é também debater de que forma a restauração contribui para a sustentabilidade das propriedades.

“Nós vamos ter essa oportunidade de discutir as etapas da regularização ambiental e os papéis de todas as pessoas envolvidas no processo. Outro ponto forte é trazer para o centro que a adequação ambiental da propriedade traz grandes benefícios para as famílias agricultoras e para o território”, explicou.

O encontro é realizado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) em parceria com o Observatório do Código Florestal (OCF) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).

Serviço:

  • Encontro sobre Regularização Ambiental da Agricultura Familiar em MT
  • 21/02 – das 8h às 17h
  • Teatro Agostinho Bizinoto (Praça do Avião), Alta Floresta-MT 
  • Inscrições: https://shorturl.at/FwtOC

Filme “Expedição Cerrado: passaporte para o futuro” é lançado nesta quarta (4/12) na Câmara dos Deputados

Documentário filmado durante expedição promovida pelo Observatório do Código Florestal apresenta panorama de comunidades tradicionais e agricultores familiares no bioma conhecido como berço das águas

O documentário “Expedição Cerrado: passaporte para o futuro”, realização do Observatório do Código Florestal, com apoio da Rede Cerrado e da Frente Parlamentar Mista Ambientalista, será lançado nesta quarta-feira (4/12), às 18h30min, no Auditório Freitas Nobre, na Câmara dos Deputados. 

O documentário retrata uma expedição realizada pelo Observatório do Código Florestal, entre os dias 2 e 13 de setembro deste ano, nos estados do Distrito Federal, Goiás, Bahia e Minas Gerais. O projeto tem como objetivo aprofundar o conhecimento sobre o território e compreender as dificuldades na proteção e restauração do Cerrado.  

Por meio de depoimentos de pessoas que vivem e trabalham no Cerrado brasileiro, o documentário traça um panorama da intensa pressão de desmatamento e violação de direitos humanos no bioma, considerado um hotspot de biodiversidade e de grande importância para os ecossistemas brasileiros.  

O filme revela como a escassez de água enfrentada por comunidades tradicionais e agricultores familiares no bioma – conhecido como “caixa d’água” do país – ocorre simultaneamente à expansão desenfreada de um modelo de produção agrícola. Além disso, aborda dificuldades e possibilidades da implementação da lei de proteção da vegetação nativa do país, mais conhecida como Código Florestal. 

O documentário teve seu pré-lançamento ocorrido durante a realização da COP 16 (da Biodiversidade), em Cali, na Colômbia, no último outubro. 

Serviço:

  • Lançamento do documentário “Expedição Cerrado: passaporte para o futuro
  • Data: 04/12/2024 
  • Horário: 18h30 (Brasília) 
  • Local: Auditório Freitas Nobre – Câmara dos Deputados