Expedição Caatinga percorre o semiárido para registrar desafios, saberes tradicionais e soluções de restauração no bioma 

Iniciativa dividida em duas etapas teve sua primeira fase focada no período final de chuva, articulando escuta em campo, manejo ancestral, agroecologia e parcerias estratégicas para o fortalecimento do Código Florestal 

Após percorrer o Cerrado em 2024 e o Pampa em 2025, o Observatório do Código Florestal (OCF) deu início à Expedição Caatinga, jornada voltada a registrar presencialmente as potências, os gargalos e as tecnologias sociais de conservação do único bioma 100% brasileiro. Realizada no mês de julho, em sintonia com a agenda da Caatinga Climate Week, a primeira fase da expedição teve como objetivo central observar a resiliência do território e a transformação da paisagem durante o final do período de chuva. 

A Caatinga figura entre os semiáridos mais biodiversos do planeta. A histórica convivência de suas populações com o clima extremo constitui um acervo fundamental de adaptação e resiliência climática para o país. Contudo, as crescentes pressões de conversão do solo e a urgência na implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN) demandam um olhar atento às dinâmicas locais de conservação e recuperação ambiental. 

Para registrar essa multiplicidade de visões sobre a conservação no semiárido, a expedição realizou encontros com produtores rurais, lideranças de povos e comunidades tradicionais e representantes de organizações sociais. 

Trajetória  

A rota teve início no Parque Nacional do Catimbau (PE), segunda maior reserva arqueológica do Brasil. A escolha do parque para abrir os caminhos buscou reconhecer as espécies nativas da Caatinga. 

A expedição seguiu pelo sertão pernambucano até a Comunidade Quilombola Conceição das Crioulas, em Salgueiro, onde o manejo tradicional, a ancestralidade e o protagonismo feminino foram destacadas como pilares centrais na conservação da Caatinga. 

Em Exu (PE), a expedição visitou a Associação de Agricultores Familiares da Serra dos Paus Dóias (Agrodoia), referência na aplicação da agroecologia. A vivência comprovou ser viável manter a produção de alimentos saudáveis sem a necessidade de conversão ou degradação da vegetação nativa. 

Na sequência, a equipe do OCF acompanhou as ações em campo do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN), visitando iniciativas de restauração e implantação de quintais produtivos na fronteira com o Piaui. As atividades demonstraram o papel das tecnologias sociais para garantir a segurança hídrica e alimentar de famílias agricultoras, aliando a sustentabilidade ambiental à geração de renda no semiárido. 

A passagem por Juazeiro do Norte e pela Colina do Horto (CE) trouxe uma reflexão sobre a ocupação humana e o desenvolvimento do território no Cariri. A experiência possibilitou conhecer os princípios ecológicos do Padre Cicero e entender como religião e conservação se conectam na Caatinga. 

A primeira fase da expedição finalizou com a presença do OCF na Caatinga Climate Week, marcando o encerramento da jornada com um debate de alto nível sobre a resiliência do bioma frente à emergência climática global. Ao conectar as vivências do semiárido com as discussões globais sobre clima, o evento reforçou a necessidade de priorizar o bioma nas agendas de conservação, garantindo recursos, governança inclusiva e justiça socioambiental para as populações que guardam a sociobiodiversidade do bioma. 

Falar sobre conservação e recuperação da Caatinga só faz sentido quando pisamos no território e ouvimos quem vive nele. A expedição nos mostrou que a conservação da vegetação nativa caminha lado a lado com a autonomia social, a segurança alimentar e a valorização dos saberes locais“, destaca Marcelo Elvira, secretário executivo do OCF. 

Próximos passos  

Os dados, relatos e diagnósticos socioambientais colhidos durante a expedição serão integrados aos materiais técnicos, ações de comunicação e estratégias de advocacy do OCF. O objetivo é subsidiar propostas de políticas públicas que considerem as especificidades do semiárido e impulsionem a implementação do Código Florestal na região. 

Como um dos principais produtos da iniciativa, a Expedição Caatinga também dará origem a um documentário exclusivo. O material reunirá depoimentos de moradores, lideranças e especialistas locais, combinados a registros audiovisuais da paisagem do bioma, com o intuito de mobilizar a sociedade civil sobre a urgência de sua preservação. 

A estratégia da Expedição Caatinga prevê ainda uma segunda etapa de campo, planejada para capturar o contraste do bioma no período de estiagem, completando o registro da transformação da paisagem e da capacidade de regeneração da vegetação nativa.