Como se posicionam os partidos dos candidatos à Presidência em relação ao Código Florestal

Painel do Observatório do Código Florestal mostra que os partidos seguem caminhos distintos quando o tema é a proteção das florestas brasileiras.

16 de outubro de 2026 – O Painel de Propostas Legislativas do Observatório do Código Florestal revela diferenças significativas entre os partidos dos candidatos à Presidência da República quando o assunto é a proteção da vegetação nativa brasileira.
Atualmente, o painel acompanha 120 propostas em tramitação no Congresso Nacional relacionadas ao Código Florestal e à proteção dos biomas brasileiros. Desse total, 82 são classificadas como contrárias à proteção florestal, enquanto 38 são consideradas favoráveis.

Entre as propostas monitoradas, o Partido Liberal (PL) é o partido que mais apresentou projetos com potencial de reduzir a proteção das florestas. Ao todo, são 27 propostas que alteram o Código Florestal. Dessas, 13 são classificadas como “contra” e 14 como “contra com ressalvas”. Não há registros de propostas favoráveis entre os projetos identificados no painel.

Já o Partido dos Trabalhadores (PT) é o partido com o maior número de propostas favoráveis à proteção da vegetação nativa. A legenda aparece com 7 projetos, todos classificados como favoráveis à conservação ambiental e/ou ao aprimoramento dos mecanismos de proteção florestal previstos na legislação.

Os dados evidenciam que a disputa eleitoral reflete diferentes visões sobre a agenda socioambiental. Enquanto alguns partidos apresentam iniciativas voltadas ao fortalecimento da proteção das florestas e dos biomas brasileiros, outros concentram esforços em propostas que flexibilizam regras de conservação ou reduzem instrumentos de proteção ambiental.

O Código Florestal é uma das principais legislações ambientais do país e estabelece regras para a proteção da vegetação nativa em propriedades rurais, incluindo áreas de preservação permanente e reservas legais. A legislação é considerada estratégica para a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos, a manutenção da qualidade dos solos e o equilíbrio climático, fatores diretamente relacionados à produção agropecuária e à segurança ambiental.

Nesse contexto, a análise das propostas de cada partido em tramitação no Congresso Nacional ajuda a compreender os diferentes modelos de desenvolvimento defendidos pelas forças políticas e seus possíveis impactos sobre o futuro das florestas brasileiras.

Observatório do Código Florestal participa de evento do GEDA/UFMG e fala sobre desafios da implementação da lei

15 de outubro de 2026 – O Observatório do Código Florestal participou nesta quarta-feira (14) do evento promovido pelo Grupo de Estudos em Direito Ambiental (GEDA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A atividade contou com a palestra de Marcelo Marques Elvira, secretário executivo do Observatório, que apresentou um panorama sobre os desafios da implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (Lei nº 12.651/2012), conhecida como Código Florestal.

Durante o encontro, foram apresentados temas como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), os Programas de Regularização Ambiental (PRA) e a importância da restauração de áreas degradadas para o cumprimento das metas climáticas brasileiras. Também foram apresentados dados sobre o estágio de implementação da legislação nos estados e os principais desafios técnicos e políticos para sua efetivação.

A palestra destacou ainda o Termômetro do Código Florestal, plataforma desenvolvida pelo Observatório que reúne dados sobre a implementação da lei em todo o país. A ferramenta subsidia análises técnicas e a incidência política da sociedade civil, fornecendo informações qualificadas para o acompanhamento das políticas públicas relacionadas ao balanço da vegetação nativa.

Para Marcelo Elvira, a participação em eventos com universitários é especialmente relevante, uma vez que o Direito Ambiental não é uma disciplina obrigatória e apenas oferecida como disciplina eletiva nas universidades brasileiras. “Iniciativas como a promovida pelo GEDA/UFMG contribuem para aproximar a formação acadêmica da prática das políticas públicas ambientais”.

[BVRio e OCF] A proteção da água começa onde ela nem sempre aparece

BVRio defende que a revisão da Resolução CONAMA nº 303/2002 reconheça expressamente a proteção dos olhos d’água intermitentes, em conformidade com a decisão do Supremo Tribunal Federal.

A proposta de revisão da Resolução CONAMA nº 303/2002 está incluída na pauta da 65ª Reunião Extraordinária do Conselho Nacional do Meio Ambiente, marcada para 6 de outubro. A inclusão na pauta não garante que o tema será deliberado, mas oferece ao CONAMA uma oportunidade importante de conferir clareza jurídica e aplicação prática a uma proteção que já foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal.

A questão parece técnica, mas tem consequências diretas para a proteção da água, a regularização ambiental de propriedades rurais, a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a atuação dos órgãos ambientais.

Um olho d’água intermitente é um afloramento natural de água subterrânea que se manifesta apenas em determinadas épocas do ano, acompanhando as variações sazonais do lençol freático. Sua intermitência não o torna irrelevante nem o confunde com uma formação efêmera resultante apenas de uma chuva. Esses afloramentos podem integrar a dinâmica de cursos d’água intermitentes e são especialmente importantes em regiões sujeitas a secas e estiagens.

O STF conferiu interpretação conforme a Constituição aos artigos 3º, inciso XVII, e 4º, inciso IV, da Lei nº 12.651/2012 (conhecida como Código Florestal) para reconhecer que os olhos d´água intermitentes, e não só os perenes, são Áreas de Preservação Permanente (APP).

O STF não alterou formalmente as palavras do Código Florestal, mas definiu qual é a interpretação constitucionalmente válida desses dispositivos. Por se tratar de decisão tomada em controle concentrado de constitucionalidade, sua conclusão possui eficácia geral e efeito vinculante para o obrigado, o Poder Judiciário e para a Administração Pública.

A inclusão expressa dos olhos d’água intermitentes na Resolução CONAMA nº 303/2002, portanto, não cria uma nova categoria de APP, nem amplia arbitrariamente as obrigações impostas aos proprietários rurais. Ela torna a regulamentação compatível com a interpretação já fixada pelo Supremo e permite sua aplicação mais clara e uniforme.

A própria vigência da Resolução nº 303/2002 foi protegida pelo STF na ADPF 748. Naquela decisão, o Tribunal declarou inconstitucional a Resolução CONAMA nº 500/2020, que havia revogado a Resolução nº 303/2002 e outras normas ambientais sem substituí-las por um marco equivalente.

O STF distinguiu expressamente a eliminação de uma proteção ambiental da atualização legítima de uma norma. Reconheceu também a competência do CONAMA para estabelecer parâmetros, definições e limites necessários à aplicação da legislação ambiental. A revisão atualmente em discussão pode, portanto, adequar a Resolução nº 303/2002, mas não deve resultar em redução da proteção reconhecida pela Constituição e pela jurisprudência do próprio Supremo.

Por que a mudança é necessária?
A ausência de uma referência explícita aos olhos d’água intermitentes na regulamentação pode produzir interpretações divergentes entre estados, municípios, proprietários e órgãos ambientais e inclusive gerar validação de Cadastro Ambiental Rural (CAR) sem a consideração dessas APPs e judicialização sobre o tema.

No CAR, essa indefinição pode levar à omissão dessas áreas durante a análise e regularização ambiental dos imóveis. Isso significa que a validação sem considerar um olho d’água intermitente pode ser revista, corrigida ou anulada administrativa ou judicialmente, gerando insegurança para produtores e para a própria Administração Pública.


Uma regulamentação clara permite que:
● produtores rurais saibam previamente quais áreas precisam ser identificadas e protegidas;
● órgãos ambientais adotem critérios uniformes na análise do CAR e dos programas de regularização ambiental;
● gestores públicos reduzam o risco de decisões administrativas contraditórias;
● a proteção jurídica corresponda ao funcionamento real dos sistemas hídricos;
● conflitos e correções futuras sejam evitados.

O que o CONAMA deve fazer
A BVRio recomenda que a revisão da Resolução nº 303/2002:

1. reconheça expressamente que os entornos dos olhos d’água intermitentes constituem Áreas de Preservação Permanente;
2. diferencie claramente os afloramentos intermitentes das formações efêmeras;
3. preserve o nível de proteção ambiental estabelecido pelo Código Florestal conforme interpretado pelo STF; e
4. ofereça orientação aplicável ao CAR, à regularização ambiental e à atuação dos órgãos responsáveis.

Independentemente de o tema ser deliberado na reunião de 6 de outubro, a obrigação jurídica de proteção dos olhos d’água intermitentes reconhecida pelo Supremo permanece. A revisão da Resolução nº 303/2002 deve ser utilizada para eliminar dúvidas, promover a implementação coerente do Código Florestal e conciliar proteção da água, segurança jurídica e viabilidade administrativa.

A água não deixa de ser essencial porque não aparece durante todo o ano e a regulamentação ambiental precisa reconhecer essa realidade.

Roberta del Giudice é diretora de Florestas e Políticas Públicas do Instituto BVRio. Desde 2011, a BVRio desenvolve instrumentos e iniciativas voltados à implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (conhecida como Código Florestal), à conservação florestal e ao aprimoramento da governança ambiental brasileira.

Marcelo Elvira é Secretário executivo do Observatório do Código Florestal (OCF), rede de organizações da sociedade civil criada para monitorar, acompanhar e promover a implementação qualificada da Lei de Proteção da Vegetação Nativa.

Referências jurídicas: ADC 42/DF e ações conexas; ADPF 748/DF; Lei nº 12.651/2012; Resolução CONAMA nº 303/2002.

[Nexo] O uso das Cotas de Reserva Ambiental para reparar danos à flora

O desmatamento ilegal segue entre os principais desafios ambientais do Brasil e continua gerando ações para responsabilização e reparação dos danos causados. Mas diante desse cenário, surge uma questão fundamental: o modelo atual para reparar danos à flora é capaz de devolver à sociedade aquilo que ela perdeu?

Em artigo publicado no Nexo Políticas Públicas, Raul Silva Telles do Valle e Marcelo Spinelli Elvira defendem que a reparação integral dos danos ambientais deve ir além do replantio das áreas desmatadas, incorporando também medidas compensatórias capazes de gerar benefícios ambientais concretos.

O texto apresenta as Cotas de Reserva Ambiental (CRAs) como uma alternativa para tornar essa compensação mais efetiva, promovendo conservação, recuperação florestal e maior eficiência na responsabilização por danos ambientais.

🔗 Leia o artigo completo: https://pp.nexojornal.com.br/ponto-de-vista/2026/09/14/o-uso-das-cotas-de-reserva-ambiental-para-reparar-danos-a-flora

Publicação: Nexo Jornal
Artigo de opinião | Observatório do Código Florestal
Autores: Raul Silva Telles do Valle e Marcelo Elvira 
14 de Setembro de 2026 

Comitê técnico debate futuro e aprimoramento do Termômetro do Código Florestal

27 de agosto de 2026 – Pesquisadores que compõem o Comitê Técnico do Observatório do Código Florestal (OCF) se reuniram em Piracicaba, no Imaflora, para discutir avanços da metodologia e a atualização dos dados da plataforma do Termômetro do Código Florestal (TCF). O encontro teve como foco a evolução da plataforma e as perspectivas para ampliar sua contribuição ao acompanhamento da implementação do Código Florestal no Brasil.

Criado em 2017, o Termômetro do Código Florestal é uma iniciativa da sociedade civil que reúne dados e análises sobre a legislação florestal brasileira, contribuindo para a transparência e o acompanhamento da conservação da vegetação nativa em todo o país. A plataforma é desenvolvida com a participação de organizações-membro do OCF, que incluem: Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM); Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora); Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (CSR/UFMG); Instituto de Pesquisa e Gestão Pública (IGPP); Instituto Centro de Vida (ICV); Instituto Socioambiental (ISA); e Instituto BVRio.

Durante a reunião, os participantes discutiram oportunidades para integrar conhecimentos, metodologias e bases de dados, ampliando o potencial da plataforma como ferramenta de apoio à pesquisa, à formulação de políticas públicas e à governança ambiental. Ao final do encontro, as organizações reafirmaram seu compromisso com a atualização do Termômetro do Código Florestal, buscando manter a plataforma como uma referência nacional na produção e disseminação de informações sobre a implementação da legislação florestal brasileira. O próximo lançamento dos dados está previsto para acontecer em maio de 2027.

OCF destaca a importância dos Programas de Regularização Ambiental na VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica

28 de julho de 2026 – Entre os dias 27 e 31 de julho de 2026, o campus da Universidade de Brasília (UnB) recebe a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, o maior encontro nacional dedicado à restauração de ecossistemas. Durante o evento, o Observatório do Código Florestal (OCF) reforçou a importância dos Programas de Regularização Ambiental (PRA) como instrumento estratégico para impulsionar a restauração da vegetação nativa e contribuir para o alcance das metas do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG).  

O secretário executivo do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, foi um dos palestrantes da primeira sessão plenária do evento, que abordou a “Governança da Restauração no Brasil e a Agenda do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg)”.  

O painel, que contou com a mediação do consultor ambiental Raul Silva Telles do Valle, debateu os caminhos para integrar o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa às políticas públicas e aos instrumentos de gestão territorial no país. Ainda participaram da mesa o Diretor de Florestas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Thiago Belote, o analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Alexandre Bonesso Sampaio e a analista ambiental do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais, Janaína Mendonça Pereira. 

A participação do OCF reafirmou o papel central da implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa para que o Brasil cumpra suas metas de restauração em larga escala. Na visão da rede, a recuperação de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais em propriedades privadas é um pilar indispensável para conectar a conservação da biodiversidade ao desenvolvimento socioambiental.  

Durante a plenária, o Secretário Executivo do Observatório destacou a importância dos Programas de Regularização Ambiental como instrumento estratégico para impulsionar a restauração da vegetação nativa. Em sua fala, ressaltou que o avanço da análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e da regularização ambiental é fundamental para viabilizar a implementação do PRA e o alcance das metas do PLANAVEG. 

“O avanço do PLANAVEG depende diretamente do progresso da análise do Cadastro Ambiental Rural  e da regularização ambiental dos imóveis rurais. A meta de recuperar 9 milhões de hectares de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente em propriedades privadas exige um processo de análise do CAR mais ágil e eficiente. Fortalecer essa agenda, com investimentos em automação, integração de bases de dados confiáveis e aperfeiçoamento do arcabouço normativo, é fundamental para acelerar a implementação dos Programas de Regularização Ambiental, ampliar a segurança jurídica e viabilizar o cumprimento das metas de restauração previstas no PLANAVEG”, enfatiza Elvira. 

Sobre 2026 

Organizado pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), o evento consolida-se como o principal espaço de convergência entre ciência, gestão pública, saberes tradicionais e sociedade civil. Realizada a cada dois anos, a Conferência Brasileira de Restauração Ecológica promove o intercâmbio de inovações, pesquisas e experiências práticas.  

A edição de 2026 no Centro Comunitário Athos Bulcão e Anfiteatros do ICC, na UnB, conta com uma programação diversificada composta por sessões plenárias, mesas-redondas, apresentações de trabalhos, rodadas de conversas e visitas de campo. 

Saiba mais em: https://sobrestauracao.com.br/ 

Expedição Caatinga percorre o semiárido para registrar desafios, saberes tradicionais e soluções de restauração no bioma 

Iniciativa dividida em duas etapas teve sua primeira fase focada no período final de chuva, articulando escuta em campo, manejo ancestral, agroecologia e parcerias estratégicas para o fortalecimento do Código Florestal 

Após percorrer o Cerrado em 2024 e o Pampa em 2025, o Observatório do Código Florestal (OCF) deu início à Expedição Caatinga, jornada voltada a registrar presencialmente as potências, os gargalos e as tecnologias sociais de conservação do único bioma 100% brasileiro. Realizada no mês de julho, em sintonia com a agenda da Caatinga Climate Week, a primeira fase da expedição teve como objetivo central observar a resiliência do território e a transformação da paisagem durante o final do período de chuva. 

A Caatinga figura entre os semiáridos mais biodiversos do planeta. A histórica convivência de suas populações com o clima extremo constitui um acervo fundamental de adaptação e resiliência climática para o país. Contudo, as crescentes pressões de conversão do solo e a urgência na implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN) demandam um olhar atento às dinâmicas locais de conservação e recuperação ambiental. 

Para registrar essa multiplicidade de visões sobre a conservação no semiárido, a expedição realizou encontros com produtores rurais, lideranças de povos e comunidades tradicionais e representantes de organizações sociais. 

Trajetória  

A rota teve início no Parque Nacional do Catimbau (PE), segunda maior reserva arqueológica do Brasil. A escolha do parque para abrir os caminhos buscou reconhecer as espécies nativas da Caatinga. 

A expedição seguiu pelo sertão pernambucano até a Comunidade Quilombola Conceição das Crioulas, em Salgueiro, onde o manejo tradicional, a ancestralidade e o protagonismo feminino foram destacadas como pilares centrais na conservação da Caatinga. 

Em Exu (PE), a expedição visitou a Associação de Agricultores Familiares da Serra dos Paus Dóias (Agrodoia), referência na aplicação da agroecologia. A vivência comprovou ser viável manter a produção de alimentos saudáveis sem a necessidade de conversão ou degradação da vegetação nativa. 

Na sequência, a equipe do OCF acompanhou as ações em campo do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN), visitando iniciativas de restauração e implantação de quintais produtivos na fronteira com o Piaui. As atividades demonstraram o papel das tecnologias sociais para garantir a segurança hídrica e alimentar de famílias agricultoras, aliando a sustentabilidade ambiental à geração de renda no semiárido. 

A passagem por Juazeiro do Norte e pela Colina do Horto (CE) trouxe uma reflexão sobre a ocupação humana e o desenvolvimento do território no Cariri. A experiência possibilitou conhecer os princípios ecológicos do Padre Cicero e entender como religião e conservação se conectam na Caatinga. 

A primeira fase da expedição finalizou com a presença do OCF na Caatinga Climate Week, marcando o encerramento da jornada com um debate de alto nível sobre a resiliência do bioma frente à emergência climática global. Ao conectar as vivências do semiárido com as discussões globais sobre clima, o evento reforçou a necessidade de priorizar o bioma nas agendas de conservação, garantindo recursos, governança inclusiva e justiça socioambiental para as populações que guardam a sociobiodiversidade do bioma. 

“Falar sobre conservação e recuperação da Caatinga só faz sentido quando pisamos no território e ouvimos quem vive nele. A expedição nos mostrou que a conservação da vegetação nativa caminha lado a lado com a autonomia social, a segurança alimentar e a valorização dos saberes locais“, destaca Marcelo Elvira, secretário executivo do OCF. 

Próximos passos  

Os dados, relatos e diagnósticos socioambientais colhidos durante a expedição serão integrados aos materiais técnicos, ações de comunicação e estratégias de advocacy do OCF. O objetivo é subsidiar propostas de políticas públicas que considerem as especificidades do semiárido e impulsionem a implementação do Código Florestal na região. 

Como um dos principais produtos da iniciativa, a Expedição Caatinga também dará origem a um documentário exclusivo. O material reunirá depoimentos de moradores, lideranças e especialistas locais, combinados a registros audiovisuais da paisagem do bioma, com o intuito de mobilizar a sociedade civil sobre a urgência de sua preservação. 

A estratégia da Expedição Caatinga prevê ainda uma segunda etapa de campo, planejada para capturar o contraste do bioma no período de estiagem, completando o registro da transformação da paisagem e da capacidade de regeneração da vegetação nativa. 

Audiência Pública em Mato Grosso aponta risco aos avanços do Código Florestal diante de insegurança institucional na Assembleia Legislativa 

Mais de uma dezena de propostas em tramitação acelerada visam anistiar sanções e afrouxar o licenciamento de atividades econômicas nos biomas do estado 

O estado de Mato Grosso vive uma grave contradição na agenda socioambiental: ao mesmo tempo em que se posiciona na vanguarda da implementação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (12.651/2012), o avanço de uma dezena de propostas legislativas na Assembleia Legislativa estadual (ALMT) ameaça desconfigurar as metas climáticas e criar um cenário de profunda instabilidade. O alerta foi um dos eixos centrais da audiência pública realizada no parlamento mato-grossense nessa quinta-feira (25). 

O objetivo da audiência, que foi proposta pelo deputado Lúdio Cabral (PT) em articulação com o Observatório do Código Florestal (OCF) e o Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa-MT), foi debater de forma integrada o impacto de pelo menos 18 projetos de lei que tramitam na Casa e que visam flexibilizar regras de licenciamento, anistiar sanções e fragilizar áreas de preservação permanente (APP) e de reserva legal. 

Além da presença do secretário-executivo do OCF, Marcelo Elvira, o debate contou com a contribuição de Edilene Fernandes do Amaral, coordenadora jurídica do Observatório Socioambiental de Mato Grosso, Herman Oliveira, secretário-executivo do Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (FORMAD), Alice Thuault, diretora executiva do Instituto Centro de Vida (ICV), o pesquisador Lucas Barros (UFMT/Universidade da Colômbia Britânica), além de representantes do IBAMA, ICMBio, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e lideranças de comunidades de base, como a Sociedade Fé e Vida e os Comitês Populares de Defesa das Águas e do Clima da Bacia do Rio Paraguai, que trouxeram a cultura dos territórios para o centro do debate. 

Na abertura da audiência, o deputado Lúdio Cabral chamou a atenção para o ritmo acelerado com que os projetos avançam nas comissões e no plenário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, o que muitas vezes camufla a real dimensão dos estragos ecológicos acumulados. “A Assembleia é muito dinâmica, o ritmo aqui é muito acelerado, especialmente em plenário. Como são muitos projetos, a gente acaba não tendo a noção do conjunto e do que isso representa em termos sistêmicos para a fragilização da nossa legislação”, alertou o parlamentar, reforçando a importância de unificar as frentes de resistência institucional ambiental.

Ameaças ao Código Florestal 

Em sua exposição, Marcelo Elvira destacou que Mato Grosso é historicamente uma referência nacional na gestão ambiental das propriedades rurais. De acordo com dados do estudo da Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) trazidos por ele, o estado é o que possui o maior número de Termos de Compromisso ambiental assinados no país (3.229) e foi pioneiro em ferramentas como o CAR Digital e o uso do WhatsApp para comunicação com proprietários rurais. Cerca de 16% dos cadastros locais já têm análises concluídas pelo Serviço Florestal, o dobro da média nacional. 

No entanto, essa liderança está em xeque devido à falta de coesão entre os poderes. Recentemente, a Procuradoria do Estado submeteu ao Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da ADPF 743, um plano detalhado de combate ao desmatamento e queimadas, assumindo o compromisso de intensificar o monitoramento remoto e a regularização ambiental. 

“O Estado se compromete com o Supremo Tribunal Federal a implementar uma lei que já foi ratificada pela própria corte, enquanto a Assembleia Legislativa se posiciona num caminho diferente. É uma situação muito perigosa e arriscada. Isso cria uma insegurança institucional gigantesca”, advertiu Marcelo Elvira. 

O secretário-executivo do OCF lembrou que o texto atual do Código Florestal foi fruto de um dos acordos políticos mais complexos e longos da história do Congresso Nacional, equilibrando os interesses do setor produtivo e de ambientalistas. Ele reforçou que, embora sempre haja o que aperfeiçoar, o foco absoluto hoje deve ser implementar a lei de forma rigorosa, pois alterações constantes no texto enfraquecem a estrutura regulatória e descumprem os acordos firmados. 

A coordenadora jurídica do Observa-MT destacou o fato de que o conjunto de 18 projetos de lei destacados no balanço não representa todas as propostas de legislação que fragilizam a implementação do Código Florestal em Mato Grosso. Conforme destacado por Edliene Amaral, há diversas outras medidas em tramitação que são favorecidas pelo ritmo acelerado da discussão na Casa de Leis.

“Há, na verdade, um grupo muito maior de projetos que podem causar prejuízos ao cumprimento do Código Florestal. Alguns projetos têm pareceres contrários e outros têm pareceres favoráveis nas comissões. Porém, mesmo com os pareceres contrários das comissões técnicas, esses pareceres podem ser derrubados quando vão para discussão no Plenário. E, muitas vezes, pelo ritmo acelerado do debate na Assembleia, eles podem passar pelos deputados e serem votados sem que se perceba o real dano que podem provocar ao meio ambiente”, disse a representante do Observa-MT.

Ativos e Passivos e a economia da restauração 

O “Termômetro do Código Florestal“, ferramenta de monitoramento desenvolvida por organizações do OCF, aponta que Mato Grosso possui hoje um passivo de mais de 4,5 milhões de hectares de reserva legal e 300 mil hectares de APPs que precisam ser recuperados. Por outro lado, o estado detém um expressivo ativo econômico e ecológico: um excedente de 5,6 milhões de hectares de vegetação nativa mantida por proprietários rurais além da exigência legal. 

Marcelo defendeu que a solução para os passivos não deve ser o desmonte da lei, mas sim a aplicação de incentivos econômicos previstos na própria legislação federal, como as Cotas de Reserva Ambiental (CRA) e o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Ele explicou que a lógica deve ser direta e recompensar quem protege o meio ambiente, garantindo que quem possui passivos faça a regularização e quem detém excedentes florestais receba benefícios financeiros, o que protege a reputação do mercado nacional e internacional. 

Além do ganho climático, a restauração florestal obrigatória representa uma engrenagem econômica potente para o estado. Com base em estudos que projetam a geração de 0,42 emprego por hectare recuperado, a regularização das reservas legais em Mato Grosso teria o potencial de gerar mais de 1,9 milhão de postos de trabalho, movimentando fortemente toda a economia voltada para o fornecimento de insumos, coleta de sementes e manejo sustentável. 

Risco de mercado e crise climática 

O bombardeio de projetos flexibilizadores no parlamento estadual também foi apontado pelo secretário executivo como um fator de alto risco reputacional para o agronegócio mato-grossense. Em um cenário global com exigências de sustentabilidade e barreiras comerciais cada vez mais rígidas contra o desmatamento, a alteração constante das premissas ambientais locais pode provocar sérios boicotes e sanções econômicas por parte de compradores e mercados globais. 

Amaral destaca também o risco reputacional vinculado à própria Assembleia Legislativa diante da aprovação de projetos de flexibilização das normas socioambientais. “Muito tem sido gasto em termos de dinheiro público, energia e exercício posterior do Judiciário para resolver as questões envolvidas na discussão desses projetos. Por outro lado, não se preserva o benefício do debate anterior de forma ampla e que poderia evitar esses gastos e o risco reputacional”, apontou a coordenadora jurídica do Observa-MT.

Ao encerrar suas considerações, Marcelo Elvira reiterou que a implementação efetiva da lei é, fundamentalmente, uma estratégia crucial de adaptação e mitigação face aos eventos climáticos extremos e ao estresse hídrico que já afetam diretamente a produtividade do próprio agro. O OCF reafirma que qualquer política pública de sucesso pressupõe transparência, dados científicos e participação social, colocando-se à disposição para construir pontes de diálogo que assegurem o avanço da regularização ambiental com segurança jurídica e proteção aos ativos naturais do país.

[Nexo] Pampa: a força de um bioma invisível

No Pampa, o olhar perde de vista o horizonte. Mas uma paisagem tão rica e vasta, que nutre uma identidade cultural de raízes profundas, parece não ser suficiente para capturar a atenção de um país que insiste em não o enxergar. Enquanto outros biomas ocupam o centro do debate público, o Pampa segue à margem, como se a predominância de campos nativos significasse ausência de biodiversidade, de vidas ou de importância ecológica.

Talvez a invisibilidade do Pampa exista justamente porque ele requer quebras de paradigmas. Desafia a forma como aprendemos a enxergar a natureza e a conservação no Brasil, quase sempre associadas à lógica das grandes florestas. Assim, insistimos em não tentar enxergar sua riqueza ecológica porque teremos que desconstruir parte do conhecimento que absorvemos ao longo do tempo.

Confira no link o artigo completo escrito pela coordenadora de comunicação do OCF, Simone Milach e pelo secretário-executivo, Marcelo Elvira: https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2026/06/24/pampa-a-forca-de-um-bioma-invisivel

Observatório do Código Florestal participa de encontro internacional sobre pastagens nativas no sul do país

Durante o XVI Encuentro de Ganaderos, o secretário executivo do Observatório aborda as perspectivas do Pampa e da Lei de Proteção da Vegetação Nativa 

O Observatório do Código Florestal (OCF) participa do XVI Encuentro de Ganaderos de Pastizales Naturales del Cono Sur, realizado nesta sexta e sábado (19 e 20/06), em Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul. O evento, sediado no coração do bioma Pampa, reúne produtores rurais, pesquisadores e organizações da sociedade civil do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Esta edição celebra os 20 anos da Alianza del Pastizal, iniciativa internacional voltada à conservação dos campos nativos sul amercianos, e integrou a programação oficial do Ano Internacional dos Pastizales e Pastores (IYRP 2026), chancelado pela ONU/FAO. O encontro se consolidou como um dos principais espaços de intercâmbio na região para alinhar produção pecuária sustentável, políticas públicas e conservação da biodiversidade.

Representando o OCF, o secretário-executivo Marcelo Elvira é um dos palestrantes do painel “Outras ações no Pampa e Campos Nativos/Otras acciones en el Pampa y los Campos Naturales“. Na ocasião, ele contribui no debate sobre as iniciativas em andamento para conciliar a produção agropecuária com a manutenção dos serviços ecossistêmicos e a proteção das áreas naturais.

“O manejo sustentável das pastagens nativas do Pampa demonstra, na prática, que a conservação e a produção podem caminhar juntas. Para o Brasil, a implementação plena da Lei de Proteção da Vegetação Nativa é a nossa principal ferramenta para garantir a segurança jurídica do produtor e a preservação desses ecossistemas tão fundamentais e, muitas vezes, negligenciados“, destaca Marcelo.