Com menos de 2% de proteção integral e mais da metade de sua área já alterada, a Caatinga expõe a urgência de fortalecer a Lei de Proteção da Vegetação Nativa no bioma
Com menos de 2% de sua área sob proteção integral, a Caatinga segue como um dos biomas menos protegidos do Brasil, apesar de ocupar cerca de 10% do território nacional e abrigar milhões de pessoas que dependem diretamente de seus recursos naturais. Exclusivamente brasileira, a Caatinga concentra uma rica biodiversidade adaptada às condições do semiárido, mas ainda enfrenta pressões intensas, como desmatamento, degradação do solo e os impactos crescentes das mudanças climáticas.
Ao mesmo tempo, os números ajudam a dimensionar a complexidade desse território. A Caatinga abriga mais de 28 milhões de pessoas, distribuídas em uma região marcada por desigualdades socioeconômicas históricas e forte dependência dos recursos naturais. Estima-se, de acordo com o MapBiomas, que cerca de 59% de sua área já tenha sido alterada por atividades humanas, principalmente pela expansão agropecuária e pelo uso insustentável da lenha e do carvão vegetal.
Ainda assim, o bioma resiste e segue sendo fundamental para a segurança hídrica e alimentar de grande parte do Nordeste. Essa resistência também se expressa na biodiversidade. A Caatinga reúne milhares de espécies de plantas e animais, muitas delas endêmicas, ou seja, que não existem em nenhum outro lugar do mundo.
Estudos apontam que cerca de 500 espécies de plantas são exclusivas do bioma, além de centenas de espécies de aves, répteis e mamíferos adaptados ao clima semiárido da região. Ao longo de períodos de estiagem e de chuvas sazonais, a vida se organiza em ciclos próprios, revelando estratégias sofisticadas de adaptação.
Mas os dados também acendem alertas. O desmatamento acumulado, a desertificação em áreas vulneráveis e os efeitos das mudanças climáticas ampliam os riscos para o equilíbrio ecológico do bioma. Municípios inseridos na Caatinga já apresentam níveis críticos de degradação do solo, o que compromete não apenas a biodiversidade, mas também a produção agrícola e a qualidade de vida das populações locais. Nesse cenário, políticas públicas de conservação, restauração e uso sustentável ganham ainda mais relevância.
Ainda assim, a Caatinga segue sendo um território de possibilidades. Experiências de manejo sustentável, convivência com o semiárido e valorização de conhecimentos tradicionais mostram que é possível produzir, conservar e viver com o bioma de forma equilibrada. Iniciativas locais, aliadas ao fortalecimento da governança ambiental, apontam caminhos concretos para transformar dados em ação.
É nesse contexto que iniciativas como a atuação da Associação Caatinga mostram que outro caminho é possível. Atuando na conservação, restauração e desenvolvimento sustentável, a organização ajuda a transformar o olhar sobre o bioma, não como um lugar de escassez, mas como um território de potência.
“Mais do que preservar a biodiversidade, proteger a Caatinga significa garantir água, alimento e qualidade de vida para milhões de pessoas. No Dia da Caatinga, o alerta se renova para a urgência de ações integradas que aliem ciência, políticas públicas e participação social na defesa de um dos biomas mais estratégicos e ameaçados do país”, afirma Marília Nascimento, gerente de programas socioambientais da Associação Caatinga.
Celebrar o Dia da Caatinga é, portanto, reconhecer não apenas sua riqueza natural e cultural, mas também a urgência de protegê-la com base em evidências. Em meio aos desafios, a Caatinga continua florescendo e seus números, mais do que estatísticas, contam a história de um bioma que insiste em existir e em ensinar.
Entre a lei e a paisagem, o desafio de cuidar
Nesse cenário Caatingueiro, o Cadastro Ambiental Rural (CAR) funciona como um grande mapa do território. Cada propriedade cadastrada revela uma parte da paisagem, indicando onde está a vegetação, onde é preciso recuperar e onde é possível produzir com responsabilidade. No entanto, o desafio vai além do cadastro: envolve validação, monitoramento e implementação efetiva.
Segundo os dados do Termômetro do Código Florestal (TCF), 95% da área de imóveis rurais já foi registrada no CAR, isso é bom, mas 2.351.611 hectares do bioma seguem aguardando análise. Não só isso, mas na Caatinga mais de 23 milhões de hectares são vazios fundiários. Isso significa que esse território não tem informações sobre titularidade, dificultando para possíveis medidas de conservação, evidenciando a urgência de ações mais efetivas para garantir a preservação desse patrimônio natural brasileiro.
O secretário executivo do Observatório do Código Florestal (OCF), Marcelo Elvira, ressalta que a implementação do Código Florestal na Caatinga é um caminho importante para garantir segurança jurídica, orientar a produção e, ao mesmo tempo, proteger um bioma que é essencial para milhões de pessoas.
“A Caatinga reúne desafios muito específicos, que passam pela pressão sobre os recursos naturais e também por lacunas históricas na gestão do território. Quando a gente olha para os dados do Cadastro Ambiental Rural, fica evidente que o Brasil avançou no registro, mas ainda precisa avançar, e muito, na análise e na validação dessas informações. Sem isso, o Código Florestal não se concretiza na prática na Caatinga”, ressalta Marcelo.
Mais do que cumprir uma obrigação legal, implementar o Código Florestal na Caatinga é cuidar de um sistema vivo. Cada área preservada, cada trecho recuperado, cada decisão tomada no campo impacta diretamente o equilíbrio entre produção e conservação e, consequentemente, a vida de milhões de pessoas.
Na semana da Caatinga, o Observatório do Código Florestal e a Associação Caatinga reforçam a necessidade de uma visão integrada. Ao unir dados, conhecimento técnico e experiência no território, proteger o bioma também se torna uma possibilidade de construir caminhos de futuro.
Porque, no fim, a Caatinga ensina que a vida se organiza em seus próprios ritmos e encontra formas de florescer, e que garantir esse florescimento é uma responsabilidade coletiva.
Foto: Fábio Arruda